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Gastronomia e Turismo

Turismo em clima de alerta: 83,6% dos destinos brasileiros enfrentam riscos ambientais

07/11/2026 • 06:15 • Por Felipe Masid

Na Pedra do Leme, também conhecida como Caminho dos Pescadores, no final da Praia de Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro, você encontra um belo mirante, mas também perigos das mudanças climáticas

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Estudo da Universidade de Brasília revela que 301 regiões turísticas foram atingidas por eventos climáticos extremos e alerta para a falta de planejamento diante do avanço das mudanças climáticas

O cartão-postal brasileiro está cada vez mais exposto aos caprichos do clima, e o que antes parecia uma preocupação distante já ameaça alguns dos principais destinos turísticos do país. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) revelou que 83,6% das regiões turísticas brasileiras foram afetadas por eventos climáticos extremos entre 2020 e 2025. Das 360 regiões cadastradas no Mapa do Turismo Brasileiro, elaborado pelo Ministério do Turismo, nada menos que 301 registraram ocorrências relacionadas a fenômenos climáticos severos. Os números acendem um sinal de alerta para um setor que depende diretamente das condições ambientais e movimenta uma extensa cadeia econômica, envolvendo hotéis, restaurantes, transportes, comércio e serviços. O levantamento demonstra que os impactos das mudanças climáticas deixaram de representar apenas uma ameaça futura e já fazem parte da realidade de grande parte dos destinos nacionais.

Intitulado Eventos climáticos extremos no turismo brasileiro: o confronto entre os impactos e as (re)ações, o estudo cruzou informações do Mapa do Turismo Brasileiro com registros de desastres climáticos ocorridos entre 1990 e 2025. Os pesquisadores também analisaram quase 100 atas de reuniões do Conselho Nacional de Turismo e mais de 30 documentos relacionados às políticas públicas do setor. O resultado revelou uma tendência de crescimento dos eventos extremos nas últimas quatro décadas, sem que as medidas de prevenção e adaptação tenham acompanhado a mesma velocidade. Segundo a pesquisadora Jaqueline Gil, uma das responsáveis pelo levantamento, o turismo brasileiro já opera em condições de elevada vulnerabilidade climática. A situação torna-se ainda mais preocupante diante da expansão da atividade, que recebeu o número recorde de 9 milhões de turistas estrangeiros em 2025, ampliando a necessidade de investimentos em infraestrutura, segurança e planejamento ambiental.

Destinos sob pressão

Os efeitos das mudanças climáticas representam desafios que vão muito além dos prejuízos à paisagem natural. Enchentes, secas prolongadas, ondas de calor, tempestades e deslizamentos podem comprometer estradas, aeroportos, hospedagens e atrações turísticas, além de colocar em risco moradores, trabalhadores e visitantes. Para a vice-presidente da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta), Fernanda Dornelles, as empresas já enfrentam dificuldades provocadas pelas alterações climáticas e procuram adaptar suas operações conforme os recursos disponíveis. Entretanto, as respostas individuais ainda são insuficientes diante da dimensão do problema. A entidade defende uma atuação conjunta entre governos, iniciativa privada, pesquisadores e comunidades locais, com medidas capazes de proteger os ambientes naturais e garantir a continuidade das atividades econômicas. O desafio é particularmente relevante para destinos que dependem diretamente de praias, florestas, rios, montanhas e outros atrativos sujeitos às transformações ambientais.

O levantamento também evidencia a necessidade de transformar a adaptação climática em prioridade permanente das políticas públicas de turismo. Entre as medidas consideradas fundamentais estão o mapeamento de áreas de risco, a implantação de sistemas de alerta, a melhoria da infraestrutura urbana e a elaboração de planos de emergência para proteger visitantes e comunidades. Os pesquisadores ressaltam que cada região apresenta características próprias e, portanto, exige estratégias específicas para enfrentar os fenômenos climáticos. Além dos impactos imediatos, a repetição de desastres pode prejudicar a imagem dos destinos, reduzir o fluxo de visitantes e comprometer empregos e investimentos. Em um país que busca ampliar sua participação no turismo internacional, a ausência de planejamento representa um risco econômico crescente. O estudo deixa uma advertência: sem prevenção e investimentos em adaptação, as mudanças climáticas poderão transformar destinos turísticos tradicionais em áreas cada vez mais vulneráveis, colocando em perigo tanto o patrimônio natural brasileiro quanto a renda de milhares de famílias que dependem do setor.

Felipe Masid