Megaoperação contra exploração sexual infantil e tráfico humano prende 281 pessoas na Flórida, incluindo 17 profissionais ligados à Disney e à Universal Studios
Por trás dos castelos encantados, dos personagens infantis e da fantasia que atrai milhões de famílias, uma realidade perturbadora veio à tona nos Estados Unidos. Uma megaoperação policial contra crimes sexuais envolvendo menores, prostituição e tráfico humano terminou com 281 pessoas presas na Flórida, incluindo 17 profissionais ligados aos complexos de entretenimento Disney World e Universal Studios. A ação, realizada durante sete dias no condado de Polk, próximo a Orlando, teve seus resultados divulgados no final de semana, e revelou suspeitas envolvendo pessoas que exerciam atividades em ambientes frequentados por crianças e adolescentes. Entre os detidos, 13 tinham vínculos com a Disney e quatro com a Universal, sendo sete investigados especificamente por crimes sexuais contra menores. Segundo o xerife Grady Judd, responsável pela investigação, trata-se da maior operação com agentes infiltrados já realizada pelo departamento policial local. O balanço impressiona: 488 novas acusações criminais, das quais 198 correspondem a crimes graves, além da identificação de 11 possíveis vítimas de tráfico humano.
Batizada de Polk Around and Find Out II, a operação mobilizou autoridades locais, estaduais e federais, com investigadores que se passaram por crianças, adolescentes e responsáveis por menores em conversas na internet. Em uma das frentes, 31 suspeitos foram presos sob acusação de tentar encontrar crianças para cometer abusos sexuais. Outra parte da investigação concentrou-se na exploração sexual comercial e em atividades relacionadas à prostituição. Entre os detidos estão um ex-intérprete do personagem Mickey Mouse, um treinador de futebol americano infantil, um militar da Marinha norte-americana e um policial do condado de Orange. Este último foi acusado de solicitar serviços de prostituição e afastado das atividades policiais enquanto responde ao processo. As autoridades também revelaram que os investigados acumulavam, juntos, 798 acusações criminais anteriores, incluindo 358 por delitos graves. Dos presos, apenas 40 residiam no condado de Polk, enquanto os demais vieram de outras regiões da Flórida, de 20 estados norte-americanos e de 18 países, demonstrando a abrangência geográfica da operação.
Fantasia desfeita, crimes expostos
A presença de profissionais dos parques entre os investigados provocou especial preocupação das autoridades pelo contato que esses trabalhadores podem manter com crianças e adolescentes. Um dos casos destacados envolve Collin Klaco, de 24 anos, que anteriormente interpretava Mickey Mouse na Disney. Segundo a polícia, ele teria conversado pela internet com um investigador disfarçado de responsável por um menino de 13 anos e comparecido ao encontro combinado levando mochilas com fraldas, algumas estampadas com personagens da empresa. Klaco, que já não trabalhava no parque quando foi preso, enfrenta acusações relacionadas à tentativa de encontro sexual com menor e ao uso de meios eletrônicos para facilitar o suposto crime. Outro investigado, Adam Snyder, de 24 anos, declarou trabalhar na área temática Toy Story Land, no Disney's Hollywood Studios, e foi encontrado com parte do uniforme profissional e sua identificação funcional no veículo. Entre os demais funcionários citados estão trabalhadores de restaurantes, recursos humanos e atrações dos parques. O xerife também destacou a prisão de Rashawn Crayton, treinador de uma equipe de futebol americano formada por adolescentes de 11 a 14 anos, acusado de tentar encontrar uma suposta menina de 14 anos para fins sexuais.
Além das prisões, a operação revelou outros aspectos preocupantes. Segundo as autoridades, 24 suspeitos levaram armas de fogo aos encontros, 32 foram acusados de posse de drogas, incluindo cocaína, metanfetamina e fentanil, e nove estavam em liberdade condicional por delitos anteriores. Também foram identificados 32 imigrantes em situação irregular, dos quais 16 haviam sido encaminhados às autoridades migratórias norte-americanas até a divulgação do balanço. No atendimento às possíveis vítimas de exploração, a organização social One More Child informou ter estabelecido contato com 93 pessoas, das quais 18 aceitaram receber assistência especializada. O procurador-geral da Flórida, James Uthmeier, prometeu rigor na responsabilização dos envolvidos, enquanto o xerife Grady Judd reforçou a necessidade de os pais acompanharem as atividades digitais dos filhos. Segundo Judd, a Disney colaborou com as investigações e comunicou a demissão dos funcionários envolvidos. A Universal também foi citada entre as empresas que tiveram trabalhadores detidos. O episódio acende um alerta sobre a vulnerabilidade de crianças e adolescentes diante de criminosos que podem atuar em diferentes ambientes sociais e profissionais. Apesar da gravidade das acusações, todos os investigados têm direito à presunção de inocência até eventual condenação pela Justiça.