Com mais de 85% dos votos apurados, primeiro-ministro lidera maior bloco, mas não alcança maioria no Parlamento; quatro cenários podem definir o futuro político do país
As urnas foram abertas, milhões de israelenses votaram, mas a resposta sobre quem governará o país continua sem definição. As eleições parlamentares realizadas nesta terça-feira, 27, colocaram Israel diante de um novo impasse político, com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e seu principal adversário, Gadi Eisenkot, disputando o controle de um Parlamento profundamente dividido. Com mais de 85% dos votos apurados, nenhum dos dois blocos havia conquistado as 61 cadeiras necessárias para garantir maioria no Knesset, o Parlamento israelense, composto por 120 integrantes. As projeções mais recentes indicavam aproximadamente 53 assentos para a aliança de direita e extrema direita liderada por Netanyahu, contra 48 para o grupo oposicionista de Eisenkot, enquanto os partidos árabes poderiam alcançar uma representação histórica de 19 parlamentares. O resultado deixa o atual premiê em vantagem numérica, mas sem condições de assegurar sozinho a continuidade de seu governo. Diante da fragmentação política, o país poderá enfrentar semanas de negociações, alianças inesperadas e até uma nova convocação às urnas.
O primeiro cenário envolve a formação de um governo de unidade nacional, reunindo Netanyahu e Eisenkot em uma coalizão que poderia superar as divisões partidárias e garantir estabilidade institucional. Entretanto, a possibilidade enfrenta obstáculos significativos, já que o líder oposicionista construiu sua campanha defendendo justamente a saída de Netanyahu do poder. Uma segunda alternativa seria a formação de um governo liderado por Eisenkot com o apoio dos partidos árabes, que ampliaram sua representação parlamentar graças à expressiva participação de eleitores árabes israelenses. A aproximação, porém, também encontra resistência entre integrantes da oposição, especialmente diante das divergências sobre a guerra em Gaza, a questão palestina e a segurança nacional. Embora algumas dessas legendas tenham sinalizado disposição para apoiar uma mudança de governo, a construção de uma aliança estável exigiria concessões políticas consideradas difíceis. Nesse cenário, o presidente israelense, Isaac Herzog, terá papel fundamental ao indicar o candidato com maiores possibilidades de reunir uma maioria parlamentar, independentemente de qual partido tenha conquistado o maior número de cadeiras.
Quatro caminhos e nenhuma certeza
A terceira possibilidade permitiria que Netanyahu permanecesse no comando por meio de uma aproximação com partidos de direita atualmente alinhados à oposição. Entre os possíveis interlocutores estão o ex-primeiro-ministro Naftali Bennett e o político Avigdor Lieberman, que compartilham posições conservadoras em questões de segurança, mas fizeram campanha contra a permanência do atual governante. Uma eventual negociação exigiria mudanças importantes na composição da coalizão, incluindo a possível exclusão de partidos ultraortodoxos que atualmente sustentam Netanyahu. As divergências sobre o serviço militar obrigatório para religiosos ultraortodoxos representam um dos principais entraves para esse entendimento. Apesar das dificuldades, a experiência política do primeiro-ministro e sua capacidade de negociar alianças mantêm aberta a possibilidade de continuidade no cargo. Caso nenhuma das três alternativas produza uma maioria parlamentar, surgirá o quarto cenário: a convocação de novas eleições, repetindo um período de instabilidade que levou Israel a realizar cinco votações nacionais entre 2019 e 2022. Enquanto não houver uma solução, Netanyahu continuará exercendo o cargo de primeiro-ministro interino.
O impasse eleitoral acontece em um momento particularmente delicado para Israel, marcado pelas consequências da guerra na Faixa de Gaza, pelas tensões com o Irã e pelas profundas divisões internas sobre os rumos políticos e militares do país. A possibilidade de uma nova ofensiva contra Teerã também passou a integrar os debates sobre a formação do próximo governo, diante de especulações de que uma escalada regional poderia aumentar a pressão por uma coalizão de unidade nacional. O presidente Isaac Herzog já defendeu o diálogo entre os partidos para evitar outra eleição, enquanto Netanyahu insiste na formação de um governo de direita forte e Eisenkot sustenta a necessidade de uma mudança de liderança. Após a confirmação oficial dos resultados, prevista para 4 de novembro, o presidente iniciará consultas com as legendas e escolherá um candidato para tentar formar o gabinete. O indicado terá inicialmente 28 dias para negociar uma maioria, com possibilidade de prorrogação por mais 14 dias. Se as tentativas fracassarem, outros nomes poderão receber a missão antes de uma eventual dissolução do Parlamento. A eleição israelense, portanto, terminou sem resolver a principal disputa política do país: Netanyahu conquistou vantagem nas urnas, mas ainda precisa demonstrar que possui aliados suficientes para continuar governando.