Ícone do jornalismo investigativo, Cinema e da dublagem brasileira, apresentador do histórico “Documento Especial” deixa legado na televisão e lembranças de uma vida dedicada à arte, à informação e aos amigos
A televisão brasileira perdeu uma de suas vozes mais marcantes, mas o silêncio deixado por Roberto Maya promete ecoar por muitas gerações. O jornalista, ator, dublador, e apresentador, que ajudou a transformar a investigação jornalística em um poderoso instrumento de reflexão social, morreu nesta terça-feira, 27, aos 91 anos, em Campinas, no interior de São Paulo. Ele estava internado no Hospital Beneficência Portuguesa e não resistiu a um quadro de insuficiência respiratória. Dono de uma voz grave, imponente, e de uma presença inconfundível diante das câmeras, Maya conquistou reconhecimento nacional ao conduzir reportagens que ultrapassavam os limites do jornalismo convencional, revelando histórias, denunciando desigualdades, e abordando assuntos que raramente encontravam espaço na televisão aberta. Sua morte representa a despedida de um profissional que participou de momentos importantes da comunicação brasileira e ajudou a consolidar uma linguagem mais investigativa, crítica, e provocadora na televisão. Para além da notoriedade profissional, deixa também lembranças afetuosas entre aqueles que conviveram com ele, especialmente no Rio de Janeiro, cidade onde passou a maior parte de sua vida.
Nascido em 5 de janeiro de 1935, em Campinas, Roberto Maya iniciou sua trajetória profissional na década de 1950, trabalhando no rádio e na dublagem. Estudou na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (USP) e construiu uma carreira diversificada, passando pelo Teatro, Cinema, novelas e telejornais. Em 1983, integrou a equipe do Jornal da Manchete, tornando-se um dos rostos conhecidos da emissora fundada por Adolpho Bloch. Entretanto, foi a partir de 1989, quando assumiu a apresentação e a narração do programa Documento Especial, criado pelo jornalista e diretor Nelson Hoineff, que alcançou uma posição de destaque na história do jornalismo televisivo. A atração, identificada pelo subtítulo Televisão Verdade, rompeu padrões ao investigar problemas sociais, violência, preconceito, sexualidade, e comportamentos considerados tabus. Exibido inicialmente pela extinta Rede Manchete, o programa passou pelo SBT, entre 1992 e 1995, e posteriormente pela Band, permanecendo no ar até 1998. Entre suas reportagens mais lembradas estão Os Pobres Vão à Praia, sobre as diferenças sociais nas praias cariocas, e O Suicídio dos Kaiowá, que abordou a situação dos povos indígenas em Mato Grosso do Sul. A combinação de investigação, sensibilidade narrativa e crítica social transformou a atração em referência do gênero documental, conquistando três vezes o Troféu Imprensa de melhor jornalístico da televisão nacional.
Uma voz inesquecível e uma vida à beira da Lagoa
Paralelamente ao jornalismo, Roberto Maya deixou contribuições importantes para a dramaturgia, o Cinema e, especialmente, para a dublagem brasileira. Sua voz grave e imponente tornou-se uma de suas principais marcas artísticas, emprestando personalidade a personagens que atravessaram gerações. Entre seus trabalhos mais conhecidos está a interpretação do vilão Shere Khan, o temido tigre da clássica animação Mogli – O Menino Lobo, de 1967, produção da Disney que conquistou crianças e adultos em todo o mundo. Também marcou a memória dos fãs de desenhos animados ao dar voz ao Superman, na clássica série dos anos 80 Super Amigos, além de emprestar seu talento vocal a grandes astros de Hollywood, como John Wayne, um dos maiores símbolos do Cinema de faroeste, e Humphrey Bogart, protagonista de clássicos da história cinematográfica. Na televisão, participou de novelas como Simplesmente Maria, Éramos Seis, Final Feliz, e Paraíso Tropical, além de atuar em produções cinematográficas dirigidas por Walter Hugo Khouri. Seu último trabalho no Cinema foi Mulheres no Poder, lançado em 2016, ano em que se aposentou. A versatilidade artística fez de Maya um profissional capaz de transitar entre a seriedade das grandes investigações jornalísticas e o universo da ficção, utilizando a voz como instrumento de interpretação, emoção, e credibilidade.
Longe dos estúdios e dos holofotes, Roberto Maya cultivava uma rotina tranquila no bairro da Lagoa, na Zona Sul do Rio de Janeiro, onde morou durante a maior parte de sua vida. Muito querido por amigos e vizinhos, era presença conhecida nas caminhadas diárias às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, hábito que manteve mesmo em idade avançada, demonstrando disposição, vitalidade, e uma impressionante autonomia física. Quem o encontrava pelo caminho conhecia não apenas a voz famosa da televisão, mas também um homem afável, acessível, e apreciador das pequenas alegrias do cotidiano. Foi também no Rio de Janeiro que construiu grande parte de sua história pessoal ao lado da esposa, Flora, com quem compartilhou um casamento de mais de cinco décadas. A união, marcada por uma longa trajetória de companheirismo, terminou com a morte de Flora, há aproximadamente cinco anos. O casal não teve filhos, e a perda da companheira representou uma profunda mudança na vida do artista. Após ficar viúvo, Maya decidiu deixar o Rio de Janeiro e retornar a Campinas, sua cidade natal, onde passou os últimos anos. Segundo relatos de pessoas próximas, foi justamente depois da morte da esposa que sua saúde começou a apresentar problemas, contrastando com a vitalidade que demonstrava durante as caminhadas pela Lagoa. A notícia de sua morte, divulgada nesta quarta-feira, 28, provocou manifestações de pesar entre antigos colegas e profissionais da comunicação. Em nota, o SBT destacou sua contribuição para a história da emissora e prestou solidariedade aos familiares e amigos. Com uma carreira que atravessou diferentes épocas e transformações tecnológicas, Roberto Maya deixa um legado que vai muito além de sua voz inconfundível. Para o público, permanecerá como um dos grandes nomes do jornalismo investigativo e da dublagem nacional; para aqueles que compartilharam sua rotina no Rio de Janeiro, ficará também a lembrança do vizinho querido que, mesmo depois dos 90 anos, continuava caminhando pela Lagoa, como quem ainda tinha muitas histórias para contar.