Companhia carioca celebra 30 anos de trajetória com apresentações em festivais internacionais de Xangai e Xichang, levando ao palco reflexões sobre redes sociais, notícias falsas e relações humanas
Em um mundo onde as pessoas estão cada vez mais conectadas às telas e, paradoxalmente, mais distantes umas das outras, o Teatro brasileiro atravessa o planeta para provocar uma reflexão sobre os excessos da vida digital. Diretamente de Bonsucesso, na Zona Norte do Rio de Janeiro, para os palcos da China, Os Ciclomáticos Companhia de Teatro celebra três décadas de história com uma nova temporada internacional do espetáculo “Tudo Faz Sentido, Mas é Mera Coincidência”. A montagem, que mistura humor, crítica social, performance e recursos audiovisuais, aborda os impactos do uso excessivo da tecnologia, a influência das redes sociais e a disseminação de notícias falsas no comportamento contemporâneo. A companhia participa de dois importantes encontros culturais internacionais: o Silk Road Traditional Performing Arts Festival 2026, em Xangai, com apresentações nos dias 29 e 30 de outubro, e o 8th Daliangshan Theatre Festival, em Xichang, nos dias 13 e 14 de novembro. Sob direção de Ribamar Ribeiro, a produção utiliza situações do cotidiano e uma linguagem cênica dinâmica para questionar como a hiperconectividade interfere na comunicação, na convivência e na maneira como as pessoas percebem a realidade. A proposta é transformar um tema presente na rotina de milhões de indivíduos em uma experiência teatral capaz de despertar identificação, provocar risadas e estimular o pensamento crítico, mostrando que, mesmo em países culturalmente diferentes, os desafios da era digital ultrapassam fronteiras.
A circulação pela China representa mais um capítulo na trajetória de uma companhia que nasceu longe dos grandes centros tradicionais de produção cultural e conquistou reconhecimento dentro e fora do Brasil. Fundado em 1996, no bairro de Bonsucesso, o grupo construiu sua identidade artística a partir da diversidade, da experimentação e da valorização de profissionais oriundos das periferias cariocas. Ao longo de 30 anos, Os Ciclomáticos levaram suas produções a mais de 250 cidades, desenvolveram um repertório que atualmente reúne 19 espetáculos e acumularam mais de 300 premiações e indicações, consolidando uma trajetória marcada pela circulação artística e pelo diálogo com diferentes públicos. O retorno ao território chinês ganha significado especial por coincidir com as comemorações de aniversário da companhia, reforçando a capacidade de produções surgidas no subúrbio do Rio de Janeiro alcançarem espaços de projeção internacional. Para o diretor artístico Ribamar Ribeiro, que também ocupa a vice-presidência do Centro Brasileiro do International Theatre Institute (ITI), a viagem representa uma oportunidade de valorizar a produção teatral brasileira e ampliar o intercâmbio cultural. “Voltar à China justamente no ano em que Os Ciclomáticos celebram 30 anos é muito simbólico. É afirmar a importância do teatro carioca e brasileiro que fazemos no subúrbio do Rio de Janeiro e mostrar que nossas histórias podem dialogar com públicos de diferentes culturas”, destaca o diretor. A participação nos festivais também evidencia a importância da circulação internacional para companhias independentes, permitindo que experiências artísticas brasileiras sejam compartilhadas com espectadores de diferentes nacionalidades.
Conectados nas telas, distantes na vida
No palco, “Tudo Faz Sentido, Mas é Mera Coincidência” transforma as contradições da sociedade hiperconectada em matéria-prima para uma narrativa que combina entretenimento e questionamento social. A montagem explora o paradoxo de uma época em que aplicativos, plataformas digitais e redes sociais oferecem possibilidades quase ilimitadas de comunicação, mas nem sempre conseguem aproximar verdadeiramente as pessoas. A dependência dos dispositivos eletrônicos, a busca constante por aprovação virtual, a circulação acelerada de informações e a dificuldade de distinguir fatos de conteúdos enganosos aparecem como elementos de reflexão sobre os hábitos contemporâneos. O espetáculo também chama atenção para a solidão que pode existir mesmo em meio a centenas de contatos digitais, levantando questões sobre a qualidade das relações humanas e o espaço ocupado pela tecnologia no cotidiano. Para desenvolver essa abordagem, a companhia aposta na combinação de diferentes linguagens artísticas, utilizando recursos audiovisuais, performances e situações bem-humoradas que dialogam com experiências reconhecíveis pelo público. A proposta não é apresentar a tecnologia apenas como um problema, mas provocar uma reflexão sobre os limites de seu uso e as consequências da substituição de encontros presenciais por interações mediadas pelas telas. Em cena, Ribamar Ribeiro divide o palco com Carla Meirelles, Getulio Nascimento, Julio Cesar Ferreira, Nívea Nascimento, Renato Neves e Fabíola Rodrigues, formando o elenco responsável por conduzir essa experiência teatral que une crítica, criatividade e observação do comportamento humano.
A presença de Os Ciclomáticos nos festivais de Xangai e Xichang também simboliza a força de um teatro que, mesmo distante dos grandes investimentos e dos circuitos culturais mais tradicionais, consegue construir pontes entre diferentes países por meio de histórias universais. Ao longo de três décadas, a companhia transformou sua origem periférica em parte fundamental de sua identidade, desenvolvendo trabalhos que valorizam a diversidade de experiências, a experimentação cênica e a capacidade da arte de provocar transformações sociais. A participação no Silk Road Traditional Performing Arts Festival e no Daliangshan Theatre Festival amplia essa trajetória e oferece ao público chinês a oportunidade de conhecer uma produção brasileira que aborda questões compartilhadas por sociedades de diferentes continentes. Em um momento em que o avanço tecnológico modifica comportamentos, profissões e formas de convivência, o espetáculo convida os espectadores a reconsiderar a maneira como utilizam as ferramentas digitais e a importância de preservar os vínculos humanos. Mais do que comemorar 30 anos de existência, a temporada internacional representa a continuidade de um projeto artístico que nasceu no subúrbio carioca e conquistou espaço no cenário cultural mundial. Entre o humor, a crítica e a linguagem universal do teatro, Os Ciclomáticos mostram que, enquanto a tecnologia encurta distâncias geográficas, a arte continua sendo uma das maneiras mais poderosas de aproximar pessoas. E, nessa viagem de Bonsucesso à China, a companhia prova que o talento brasileiro não precisa de tradução para atravessar fronteiras e conquistar novas plateias.