Primeiro-ministro lidera apuração das eleições parlamentares, mas não alcança os 61 deputados necessários para governar; partidos árabes podem ser decisivos na formação de uma nova coalizão
As urnas israelenses começaram a revelar um vencedor na contagem dos votos, mas ainda não apontaram quem terá força suficiente para governar o país. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, líder do partido conservador Likud, assumiu a dianteira na apuração das eleições parlamentares realizadas nesta terça-feira, 27, surpreendendo parte das projeções iniciais que indicavam uma disputa mais favorável à oposição. Entretanto, a vantagem não significa uma vitória definitiva. Com 66,2% das urnas apuradas, o bloco liderado por Netanyahu aparecia com uma projeção de 56 das 120 cadeiras do Parlamento, enquanto a oposição comandada pelo ex-chefe militar Gadi Eisenkot reunia 48 assentos. Os partidos árabes, que concorreram separadamente dos dois principais campos políticos, alcançavam outros 16 representantes. Como a formação de um governo exige o apoio de pelo menos 61 parlamentares, nenhum dos adversários possuía maioria suficiente para assumir o controle do Legislativo. O resultado parcial transforma a eleição em uma disputa que continuará muito além das urnas, com negociações políticas capazes de definir se Netanyahu permanecerá no cargo ou se Israel terá uma mudança de comando.
A recuperação eleitoral de Netanyahu representa um resultado importante para um líder que enfrenta desgaste político desde os ataques do Hamas, em 7 de outubro de 2023, e a prolongada guerra na Faixa de Gaza. Apesar das críticas à condução do conflito e à segurança nacional, o primeiro-ministro conseguiu preservar uma base expressiva de eleitores, mantendo o Likud como a principal força partidária nas projeções. Durante a campanha, Netanyahu destacou operações militares contra organizações armadas e defendeu a continuidade de uma política de segurança rigorosa, além de valorizar sua aproximação com o presidente norte-americano Donald Trump. Seu principal adversário, Gadi Eisenkot, também construiu sua campanha em torno da segurança nacional, mas apresentou-se como alternativa à permanência do atual primeiro-ministro. A disputa mobilizou intensamente o eleitorado israelense, com participação de 77,7% dos eleitores, o maior comparecimento em mais de duas décadas. Embora Netanyahu tenha conquistado vantagem na contagem parcial, seu bloco enfrenta a possibilidade de perder cadeiras em relação à maioria de 64 parlamentares obtida nas eleições de 2022. Dessa forma, a liderança na apuração não elimina o desafio de reunir os apoios necessários para garantir um novo governo.
Árabes podem decidir o jogo
O crescimento dos partidos árabes surge como um dos acontecimentos mais relevantes da eleição e poderá transformar essas legendas em peças fundamentais na disputa pelo poder. Com uma representação expressiva no Parlamento, os grupos políticos ligados à população árabe israelense podem influenciar diretamente a formação de uma maioria contrária a Netanyahu. Entretanto, essa possibilidade enfrenta obstáculos importantes. As legendas árabes possuem posições próprias sobre segurança, direitos civis e a questão palestina, enquanto setores da oposição judaica resistem à formação de uma coalizão que dependa diretamente de seu apoio. O próprio Eisenkot demonstrou resistência à participação dessas forças em um eventual governo, o que dificulta a construção de uma alternativa parlamentar. Ainda assim, a nova composição do Legislativo poderá abrir espaço para negociações envolvendo apoio externo, abstenções estratégicas ou entendimentos sobre pautas específicas. A principal contradição da disputa é que a oposição pode reunir, em conjunto com os partidos árabes, mais deputados do que Netanyahu, sem necessariamente conseguir transformá-los em uma coalizão de governo. A diferença entre possuir votos para bloquear um adversário e construir uma maioria estável será decisiva para os próximos acontecimentos políticos.
A definição do próximo governo dependerá da conclusão da apuração e das consultas conduzidas pelo presidente israelense, Isaac Herzog, responsável por indicar o parlamentar com maiores possibilidades de formar uma coalizão. O escolhido deverá negociar com diferentes partidos para conquistar o apoio necessário no Knesset, em um processo que poderá se prolongar por várias semanas. Caso nenhum dos campos consiga reunir os 61 deputados exigidos, Israel poderá enfrentar um novo período de instabilidade institucional e até a possibilidade de outra eleição. Enquanto isso, Netanyahu poderá permanecer como primeiro-ministro interino, preservando uma vantagem política decorrente de sua posição atual. Para Eisenkot, o desafio será transformar a insatisfação com o governo em uma alternativa parlamentar viável, superando divergências entre partidos de centro, direita e representantes árabes. O cenário demonstra que Netanyahu conseguiu contrariar expectativas de derrota e assumir a liderança da apuração, mas ainda precisa vencer a batalha mais difícil: conquistar uma maioria capaz de mantê-lo no poder. Em Israel, a contagem dos votos poderá definir o tamanho das bancadas, mas serão as alianças construídas depois da eleição que determinarão o futuro político do país.