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Esporte

Capoeira entra na roda olímpica e mira estreia nos Jogos de Brisbane 2032

27/10/2026 • 18:36 • Por Leo Pinheiro

À frente das articulações está Patric Tebaldi, ex-presidente da Confederação Nacional de Dança Desportiva (CNDD), entidade mundial da dança esportiva, consultor esportivo com trânsito no COB e no COI

Foto: Divulgação

Modalidade brasileira inicia articulações com o COB e o COI para conquistar reconhecimento internacional e transformar tradição cultural em esporte olímpico

A capoeira está prestes a dar um salto que pode levá-la das rodas brasileiras aos maiores palcos esportivos do planeta. Depois de atravessar séculos de resistência, conquistar praticantes nos cinco continentes e transformar-se em um dos símbolos mais reconhecidos da cultura nacional, a modalidade começa a movimentar os bastidores do esporte olímpico. Pela primeira vez, articulações junto ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e ao Comitê Olímpico Internacional (COI) buscam abrir caminho para sua futura inclusão nos Jogos Olímpicos. O objetivo mais ambicioso é viabilizar uma participação como esporte de apresentação em Brisbane 2032, na Austrália, embora a edição de 2036 seja considerada uma possibilidade mais realista. A iniciativa representa um passo importante para uma manifestação afro-brasileira que combina luta, dança, música, estratégia, agilidade, e expressão corporal. Ao lado de modalidades de combate já consagradas, como judô, boxe, taekwondo, e wrestling, a capoeira poderia acrescentar uma identidade singular ao universo olímpico, levando para as arenas internacionais a energia dos berimbaus, dos cantos e das rodas. Mais do que a possibilidade de disputar medalhas, o reconhecimento representaria uma conquista histórica para mestres, professores e atletas que ajudaram a transformar uma tradição brasileira em um fenômeno mundial.

À frente das articulações está Patric Tebaldi, ex-presidente da Confederação Nacional de Dança Desportiva (CNDD), consultor esportivo com experiência no relacionamento com dirigentes do COB e do COI e integrante da equipe de consultores do Volta ao Mundo Bambas (VMB), apresentado como a maior competição de capoeira do mundo. Tebaldi foi convidado pelo presidente da Confederação de Capoeira do Brasil (CBB), Saverio Scarpati, para contribuir com a estratégia de reconhecimento internacional da modalidade. Segundo o consultor, o processo necessário para que um esporte alcance os requisitos exigidos pelo movimento olímpico pode levar de seis a 12 anos, envolvendo organização institucional, padronização de regras, arbitragem, representatividade internacional e consolidação de competições oficiais. Entretanto, a experiência acumulada e os contatos estabelecidos com dirigentes esportivos podem contribuir para acelerar determinadas etapas. “Existe uma receptividade muito positiva à capoeira, principalmente pela sua brasilidade. É um esporte que reúne competição, música, cultura e uma atmosfera absolutamente singular. Os instrumentos, os cantos e a participação do público criam um espetáculo que desperta interesse. Temos um caminho importante pela frente, mas acredito que podemos acelerar algumas etapas”, afirma. A dimensão internacional também fortalece a candidatura. De acordo com estimativas apresentadas pelos articuladores, a capoeira está presente em mais de 100 países, reúne aproximadamente 15 milhões de praticantes no mundo e seis milhões no Brasil, números que demonstram seu alcance e potencial de mobilização. Antes de uma eventual estreia olímpica, a modalidade poderá buscar espaço em competições continentais, como os Jogos Pan-Americanos, Europeus, Asiáticos e Africanos, ampliando sua visibilidade e experiência competitiva.

Da roda ao pódio

A trajetória da dança esportiva no movimento olímpico serve de referência para os próximos passos da capoeira. As primeiras discussões sobre sua inclusão no universo dos Jogos remontam a 1991, quando a organização internacional ainda utilizava a denominação IDSF. Décadas depois, o breaking, uma das expressões da dança esportiva, conquistou espaço nos Jogos Olímpicos da Juventude de Buenos Aires, em 2018, antes de estrear oficialmente nos Jogos Olímpicos de Paris 2024. Tebaldi assumiu a presidência da entidade quando a modalidade já havia sido selecionada para o programa olímpico, contribuindo posteriormente para sua profissionalização, fortalecimento institucional e atração de patrocinadores. A experiência é considerada estratégica para orientar a capoeira em um processo que exige muito mais do que popularidade ou tradição cultural. É necessário demonstrar capacidade de organização internacional, transparência na gestão, critérios técnicos de avaliação, formação de árbitros e estrutura competitiva compatível com as exigências das entidades esportivas. Nesse contexto, o Volta ao Mundo Bambas (VMB) assume papel relevante na construção de uma candidatura consistente. Desde 2022, a organização investe na profissionalização da capoeira, promovendo competições com regras estruturadas, critérios de julgamento, rankings, premiações e transmissões televisivas. A presença em canais como Combate, XSports e ComBrasil TV também contribui para ampliar o alcance da modalidade e demonstrar seu potencial como espetáculo esportivo. Esse conjunto de registros, imagens e resultados vem sendo utilizado nas conversas com representantes do movimento olímpico, especialmente do COB, como documentação da evolução técnica e competitiva da capoeira.

Embora o caminho até uma eventual participação olímpica ainda dependa de etapas institucionais e decisões internacionais, o movimento representa uma mudança significativa nas ambições da capoeira brasileira. A possibilidade de integrar os Jogos de Brisbane 2032, ainda que em caráter de apresentação, é tratada como um cenário otimista, enquanto 2036 aparece como horizonte mais plausível para avanços na busca por uma vaga no programa oficial. O desafio será transformar a presença global da modalidade em uma estrutura esportiva reconhecida internacionalmente, preservando as características culturais que fazem da capoeira uma expressão única. Diferentemente de outras lutas, sua identidade está profundamente ligada à musicalidade, ao diálogo corporal entre os participantes e à tradição transmitida por gerações de mestres. Para os envolvidos na iniciativa, justamente essa combinação pode representar um diferencial capaz de despertar o interesse do público e das instituições olímpicas. “Hoje temos condições de mostrar que a capoeira vai muito além de sua tradição cultural. Existe organização, atletas preparados, regras, arbitragem, televisão e um produto esportivo consolidado. Minha experiência permite estabelecer esse diálogo com as instituições olímpicas. Não significa que a aprovação será imediata, mas a capoeira começa essa caminhada em condições muito mais favoráveis”, conclui Tebaldi. Se a candidatura avançar, o Brasil poderá assistir a uma de suas manifestações culturais mais emblemáticas conquistar um espaço inédito no maior evento esportivo do mundo. Até lá, a capoeira seguirá gingando entre tradição e modernidade, buscando transformar o reconhecimento conquistado nas rodas espalhadas pelo planeta em uma oportunidade histórica de entrar, definitivamente, na arena olímpica.

Leo Pinheiro