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Entre likes e fantasmas, O Extermínio da Cegonha dá um choque de realidade no mundo digital

26/10/2026 • 11:12 • Por Waleria de Carvalho

“O Extermínio da Cegonha” retorna aos palcos cariocas, em temporada de até  15 de novembro

Foto: Divulgação/Dalton Valério

Em cartaz no Teatro Sérgio Porto, espetáculo de Pedro Uchoa mistura humor, suspense e conflitos de gerações para questionar os impactos da tecnologia nas relações humanas

Se a vida virou um grande palco de stories, curtidas e compartilhamentos, quem está realmente vivendo a própria história? Em tempos de relacionamentos mediados por telas, sentimentos medidos por engajamento e memórias armazenadas na nuvem, o teatro resolve tirar o público do modo automático e provocar uma reflexão sobre o mundo hiperconectado. É com essa proposta que “O Extermínio da Cegonha” retorna aos palcos cariocas, em temporada de até  15 de novembro, no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto, no Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro. Escrita e dirigida por Pedro Uchoa, que também integra o elenco ao lado de Higor Campagnaro, Julia Limp, Nara Parolini e Ricardo Lopes, a montagem combina comédia, drama e suspense para investigar como a tecnologia vem transformando comportamentos, afetos e relações sociais. Com uma linguagem contemporânea, divertida e provocadora, o espetáculo coloca frente a frente gerações que cresceram em universos diferentes, mas compartilham os mesmos dilemas emocionais. Afinal, em uma sociedade que registra praticamente tudo, talvez o maior desafio seja justamente não perder aquilo que realmente importa.

A história acompanha Isabel, que decide passar o feriado de Finados em sua cidade natal, acompanhada do namorado, do cunhado e da irmã mais nova. O que deveria ser uma viagem tranquila ganha contornos inesperados quando ela reencontra Samuel, um amigo de infância cuja presença desperta lembranças, conflitos e fantasmas de um passado que não pode ser simplesmente apagado. A partir desse encontro, a trama mergulha nas contradições de uma geração que conheceu a infância analógica, dividindo o telefone fixo com a família, mas precisou aprender a viver em um universo dominado por aplicativos, smartphones e redes sociais. O contraponto aparece na personagem Madá, irmã caçula de Isabel e representante da geração Z, para quem a conexão digital sempre fez parte da existência. Entre diferenças de comportamento e visões de mundo, surgem discussões sobre responsabilidade emocional, silenciamento feminino, privilégios, memória e os limites da exposição nas redes sociais. A montagem questiona como as transformações tecnológicas interferem na maneira de amar, estabelecer vínculos, enfrentar traumas e construir a própria identidade, revelando que nem todas as feridas podem ser resolvidas com um simples clique.

Quando a vida sai da tela

O texto começou a ser desenvolvido há mais de uma década, mas precisou acompanhar as rápidas transformações tecnológicas que modificaram profundamente a sociedade. Segundo Pedro Uchoa, o avanço digital deixou de funcionar apenas como pano de fundo para assumir um papel central na estrutura dramática, tornando ainda mais evidentes os conflitos entre gerações e as consequências emocionais da hiperconectividade. “A tecnologia hoje não é uma ferramenta, é um território”, afirma o dramaturgo, que considera essencial discutir os impactos dessas mudanças sem recorrer a respostas simplistas. A encenação acompanha essa proposta ao misturar realismo, poesia, humor e situações de tensão, criando uma narrativa fragmentada que dialoga com a velocidade e a complexidade da vida contemporânea. Uma das novidades está justamente na participação direta da plateia: o espetáculo começa com um karaokê interativo, no qual os espectadores podem cantar e escolher músicas por meio de um QR Code conectado ao Instagram da montagem. A experiência rompe simultaneamente a quarta parede tradicional e uma espécie de quarta parede digital, transformando o público em participante ativo da história. Para o diretor, essa interação reforça a ideia de que o teatro não precisa competir com a tecnologia, mas pode utilizá-la para provocar reflexões sobre a maneira como vivemos.

Com 80 minutos de duração e classificação indicativa de 14 anos, “O Extermínio da Cegonha” permanece em cartaz até 15 de novembro, com apresentações às sextas-feiras e aos sábados, às 20h00, e aos domingos, às 19h00. O espetáculo ocupa o Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto, localizado na Rua Visconde de Silva, s/nº, ao lado do número 292, no Humaitá. Os ingressos custam R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada), com vendas pela plataforma Sympla. Informações sobre a montagem estão disponíveis no Instagram @exterminiocegonha, enquanto a programação do espaço cultural pode ser acompanhada pelo perfil @espacosergioporto.rio Mais do que apresentar uma crítica ao uso excessivo das redes sociais, a peça convida o público a refletir sobre os efeitos da tecnologia na construção das memórias, na responsabilidade pelos próprios atos e na qualidade dos relacionamentos. Entre risadas, desconfortos e revelações, a montagem deixa uma provocação que ultrapassa os limites do palco: em um mundo onde todos estão permanentemente conectados, será que estamos cada vez mais distantes uns dos outros?

Waleria de Carvalho