Ex-advogado pessoal do Presidente, ministro Cristiano Zanin atende a pedido da campanha petista e estende votação até as 19h00 em todo o país, em decisão tomada na reta final do segundo turno presidencial
Na corrida pelo Palácio do Planalto, até os ponteiros do relógio entraram na disputa eleitoral. Quando milhões de brasileiros se preparavam para o encerramento da votação do segundo turno, previsto para as 17h00 deste domingo, 25, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), indicado à Corte pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2023, determinou a prorrogação do funcionamento das urnas em todo o Brasil até as 19h00, pelo horário de Brasília. A decisão foi tomada após um pedido apresentado pela coligação do próprio Lula, que alegou dificuldades enfrentadas por eleitores para chegar aos locais de votação. O episódio chamou atenção não apenas pela abrangência nacional da medida, mas também pelo histórico de Zanin, que atuou como advogado pessoal do Presidente antes de assumir uma cadeira no Supremo. A determinação ocorreu em meio à disputa acirrada entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL), marcada por pesquisas que apontaram vantagem numérica do candidato de oposição, embora dentro da margem de erro.
A campanha petista havia recorrido à Justiça após receber relatos de redução da frota de ônibus, longas esperas nos pontos e dificuldades de acesso ao transporte público gratuito em diferentes regiões do país. Entre os locais mencionados estavam municípios de São Paulo, Bahia, Alagoas, Pernambuco, Roraima, Piauí, Paraíba, Pará, Paraná e Rio de Janeiro. Em Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas, na Bahia, foram apontados problemas na circulação dos coletivos, enquanto na capital paulista a coligação afirmou que apenas parte da frota estaria operando, apesar das determinações para garantir o transporte dos eleitores. Os advogados de Lula argumentaram que essas situações poderiam comprometer o exercício do direito ao voto, especialmente entre cidadãos dependentes do transporte público. Embora as reclamações estivessem concentradas em localidades específicas, Zanin decidiu ampliar o horário de votação em todo o território nacional, estendendo a medida também a municípios onde não haviam sido relatados problemas semelhantes.
Indicação de Lula em evidência
A decisão ganhou repercussão política pelo fato de Cristiano Zanin ter sido escolhido pelo próprio Lula para integrar o Supremo Tribunal Federal em 2023, após atuar durante anos na defesa jurídica do petista, inclusive nos processos relacionados à Operação Lava Jato. Sua indicação foi aprovada pelo Senado Federal, permitindo que assumisse uma das 11 cadeiras da mais alta Corte do país. No despacho que prorrogou a votação, Zanin destacou a urgência das informações recebidas, registrando que os fatos chegaram ao conhecimento do Supremo às 16h32min49s, menos de meia hora antes do horário originalmente previsto para o encerramento das urnas. O ministro justificou a ampliação do período eleitoral como uma medida necessária para assegurar o direito de participação dos cidadãos. A campanha de Flávio Bolsonaro também havia apresentado solicitações de extensão do horário em municípios atingidos por chuvas intensas, alagamentos e dificuldades de deslocamento. Entretanto, a decisão nacional foi adotada após o pedido da coligação petista, ampliando o funcionamento das seções eleitorais para todos os eleitores, independentemente da preferência política.
A prorrogação acrescentou um capítulo inesperado à reta final de uma das disputas presidenciais mais polarizadas dos últimos anos. O fato de Zanin ter sido advogado pessoal de Lula e posteriormente indicado pelo Presidente ao STF tornou-se um elemento politicamente relevante diante de uma decisão que atendeu à solicitação da campanha petista, embora esse vínculo anterior, isoladamente, não comprove favorecimento ou irregularidade. Com mais de 158 milhões de brasileiros aptos a votar, a extensão do horário poderá permitir a participação de cidadãos que enfrentaram dificuldades de deslocamento ao longo do domingo, além de modificar a programação inicialmente prevista para o encerramento da votação e a divulgação dos resultados. Enquanto Lula tenta conquistar mais quatro anos no Palácio do Planalto e Flávio Bolsonaro aposta na vantagem numérica registrada nas últimas pesquisas, a decisão de um ministro indicado pelo atual Presidente colocou o Supremo no centro das atenções. Na disputa pelo comando do país, o relógio eleitoral ganhou duas horas adicionais, e a palavra final permanece com os eleitores.