Com apenas 5% das crianças pequenas imunizadas com três doses, Brasil enfrenta baixa cobertura vacinal, agravada pela desinformação, enquanto doença continua provocando internações e mortes
A pandemia deixou de ocupar as manchetes diariamente, mas a covid-19 continua fazendo vítimas entre os brasileiros mais jovens. Somente em 2026, 25 crianças e adolescentes morreram em decorrência da doença no Brasil, um número que acende o alerta para os riscos da baixa cobertura vacinal e da disseminação de informações falsas sobre os imunizantes. Entre as vítimas, 15 tinham menos de dois anos, justamente uma das faixas etárias mais vulneráveis às complicações provocadas pelo coronavírus. O cenário é ainda mais preocupante diante dos dados do Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde, que apontam que apenas 5% das crianças pequenas completaram o esquema de três doses da vacina contra a covid-19. Isso significa que 95% ainda não receberam as três aplicações previstas, embora parte delas possa apresentar proteção parcial. Enquanto a desinformação continua influenciando decisões familiares, a doença já provocou mais de 1,1 mil hospitalizações de crianças menores de 14 anos por quadros respiratórios graves neste ano.
O diretor do PNI, Eder Gatti, aponta a desinformação como um dos principais obstáculos para ampliar a imunização infantil no país. Segundo ele, mensagens falsas e declarações contrárias à vacinação disseminadas durante a pandemia contribuíram para aumentar a insegurança de pais e responsáveis, mesmo diante das evidências científicas sobre a eficácia e a segurança dos imunizantes. Desde 2024, a vacina contra a covid-19 integra o calendário básico de vacinação infantil, com aplicações previstas aos seis, sete e nove meses de idade, conforme o esquema recomendado. Apesar da disponibilidade de doses na rede pública, a resistência de parte das famílias continua dificultando o avanço da cobertura. Estudos realizados por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), com dados de 24 cidades brasileiras, apontaram que a vacinação foi capaz de reduzir em 97% os casos graves da doença entre crianças, demonstrando a importância da imunização para prevenir complicações e hospitalizações.
Desinformação que custa vidas
As 25 mortes registradas em 2026 mostram que a covid-19 permanece como uma ameaça à saúde infantil, especialmente entre os menores de dois anos. Um levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2023, revelou que 15% das crianças e adolescentes entre cinco e 17 anos não haviam sido vacinados contra a doença. Entre os responsáveis que recusaram a imunização, aproximadamente 40% mencionaram receio de reações adversas ou da aplicação, enquanto 22% consideravam a vacina desnecessária e 18% afirmaram não confiar no imunizante. Entretanto, dados apresentados pelo Ministério da Saúde indicam que, entre mais de seis milhões de doses aplicadas em crianças durante a pandemia, não houve registro de morte atribuída à vacinação, enquanto 92% das reações notificadas foram leves e esperadas. Em contrapartida, a própria infecção pode provocar complicações graves, como a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica, responsável por 2.115 casos e 142 mortes entre crianças e adolescentes no Brasil de 2020 a 2023.
Embora o Programa Nacional de Imunizações tenha registrado avanços na recuperação da cobertura de outras vacinas infantis, a proteção contra a covid-19 permanece entre os maiores desafios da saúde pública brasileira. O orçamento do programa, que era de aproximadamente R$ 5 bilhões, tem previsão de alcançar cerca de R$ 10 bilhões em 2027, permitindo ampliar a aquisição de imunizantes e fortalecer campanhas preventivas. Entretanto, os investimentos precisam ser acompanhados de estratégias capazes de recuperar a confiança das famílias e combater informações enganosas que circulam nas redes sociais. As 25 mortes de crianças e adolescentes por covid-19 em 2026, incluindo 15 vítimas menores de dois anos, reforçam a necessidade de ampliar a vacinação e o acesso à informação confiável. Para especialistas, esclarecer dúvidas, fortalecer a orientação dos profissionais de saúde e incentivar o cumprimento do calendário vacinal são medidas essenciais para reduzir hospitalizações e evitar novas mortes. O desafio vai além da disponibilidade de vacinas: é garantir que a proteção oferecida pela ciência chegue efetivamente às crianças brasileiras.