Estrelada por Stela Freitas e Hugo Germano, peça “Dora e Theo”, de Renata Mizrahi, mistura humor, emoção e conflitos de gerações para mostrar que nunca é tarde para recomeçar
Quem disse que o amor tem prazo de validade ou que a liberdade se aposenta aos 75 anos? Depois de meio século de casamento, uma festa de Bodas de Ouro pode ser o momento perfeito para celebrar uma união duradoura. Mas, para Dora, é justamente a gota d’água que faltava para colocar um ponto-final em uma vida dedicada às aparências. Cansada de esconder seus desejos e de representar o papel de esposa exemplar, a matriarca surpreende a família ao abandonar a própria comemoração e partir em busca de uma nova história. É dessa reviravolta, tão inesperada quanto libertadora, que nasce “Dora e Theo”, espetáculo escrito pela premiada dramaturga Renata Mizrahi, protagonizado por Stela Freitas, que celebra 55 anos de carreira, e pelo ator Hugo Germano. Entre diálogos afiados, situações hilárias e momentos de profunda emoção, a montagem aborda o envelhecimento feminino, a coragem de romper convenções sociais e o direito de continuar desejando, amando e sonhando em qualquer fase da vida.
Sem saber exatamente qual será seu próximo passo, Dora encontra abrigo na casa do neto Theo, um jovem de 23 anos que, apesar da admiração pela avó, descobre que conhece muito pouco sobre a mulher por trás da figura familiar. A convivência transforma o apartamento em um território de descobertas, provocações e conflitos entre duas gerações aparentemente distantes, mas surpreendentemente semelhantes em suas inquietações. Enquanto Dora tenta recuperar a feminilidade, a paixão e a autonomia que deixou adormecidas durante décadas, Theo enfrenta as próprias inseguranças e contradições da juventude. Com humor ácido e sensibilidade, os personagens questionam certezas, desmontam preconceitos e aprendem que maturidade não significa ausência de dúvidas, assim como juventude não é sinônimo de liberdade. A troca de experiências revela que ambos precisam romper suas próprias amarras para descobrir quem realmente desejam ser. A relação ganha ainda mais força com a sintonia dos protagonistas. Para Stela Freitas, trabalhar com Hugo Germano representa um verdadeiro encontro de almas. A atriz celebra a parceria e destaca o caráter afetivo e transformador da história, enquanto o ator ressalta a intensidade das descobertas construídas a cada encontro em cena.
Recomeçar não tem idade
A origem de “Dora e Theo” remonta a uma inquietação que acompanhou Renata Mizrahi durante uma década. A dramaturga escreveu a peça após a estreia do curta-metragem “Bodas”, protagonizado por Othon Bastos e Suzana Faini, no qual Dora decide se separar do marido, Caio, durante a comemoração dos 50 anos de casamento. O desfecho despertou a curiosidade do público, que queria saber para onde a personagem havia ido. Renata costumava brincar que Dora tinha fugido para a casa do neto, resposta que acabou se transformando no ponto de partida para uma nova obra. A partir dessa ideia, a autora desenvolveu uma narrativa sobre liberdade, envelhecimento, identidade e relações familiares, marcada por diálogos rápidos e dinâmicos que aproximam a plateia dos dilemas dos personagens. Mais do que contar a história de uma mulher que abandona um casamento, o espetáculo lança luz sobre uma geração frequentemente esquecida quando o assunto envolve desejos, sexualidade e novos projetos de vida. Dora não pretende simplesmente trocar uma existência por outra, mas descobrir quem é depois de tantos anos vivendo para corresponder às expectativas alheias. Ao perceber que precisa passar um período sozinha, a personagem compreende que sua maior conquista talvez não seja encontrar um novo amor, mas recuperar o amor por si mesma.
A direção é compartilhada por Renata Mizrahi e Priscila Vidca, que completam 13 anos de parceria artística, marcada por montagens premiadas como “Os Sapos”, “Silêncio!” e “Gabriel Só Quer Ser Ele Mesmo”, além de “O Poeta Aviador” e “Vale Night”. Para Priscila, dirigir em conjunto significa exercitar a escuta, negociar caminhos criativos e construir uma linguagem que reúna o melhor de cada artista, processo que dialoga diretamente com a trajetória de descobertas e transformações vivida pelos protagonistas. A montagem conta ainda com cenário de Doris Rollemberg, figurinos de Guilherme Reis, iluminação de Elisa Tandeta, trilha sonora de Renata Mizrahi e Priscila Vidca e direção de produção de Sandro Rabelo, parceiro da dramaturga há 15 anos. Ao colocar uma mulher de 75 anos no centro de uma história sobre escolhas e reinvenção, a produção desafia estereótipos associados à velhice e convida o público a refletir sobre os limites impostos pela sociedade e por nós mesmos. Entre risadas, confrontos e descobertas, “Dora e Theo” mostra que a vida não termina quando as convenções determinam e que, às vezes, é preciso abandonar uma festa de Bodas de Ouro para finalmente começar a celebrar a própria existência.