Prévia da inflação de outubro revela disparada nos preços de produtos básicos, com tomate subindo 24,54%; apesar da desaceleração do índice geral, custo da alimentação continua pressionando o orçamento das famílias
A inflação pode até ter tirado o pé do acelerador, mas os preços dos alimentos continuam colocando o governo Lula diante de um desafio que não cabe apenas nas estatísticas econômicas: o bolso dos brasileiros. Enquanto o presidente enfrenta a reta final da disputa eleitoral, o tomate virou artigo de luxo, a cebola faz o consumidor chorar antes mesmo de ser cortada e até o arroz, presença quase obrigatória na mesa das famílias, ficou mais caro. Para o governo Lula, a persistência da alta dos alimentos representa um desafio, especialmente porque a desaceleração da inflação geral não significa necessariamente preços menores nas prateleiras. Segundo dados divulgados nesta sexta-feira, 23, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o tomate disparou 24,54%, a cebola subiu 13,63%, a batata-inglesa avançou 10,96% e o arroz ficou 5,80% mais caro na prévia da inflação de outubro. Embora o IPCA-15 tenha desacelerado de 0,70% em setembro para 0,32% em outubro, os alimentos seguiram pressionando o orçamento doméstico.
O grupo Alimentação e Bebidas registrou alta de 0,88%, a maior variação entre os nove grupos pesquisados, enquanto os produtos consumidos dentro de casa ficaram, em média, 1,01% mais caros, acelerando em relação aos 0,38% registrados em setembro. Nem tudo, porém, foi aumento: a cenoura apresentou queda de 10,67%, as frutas recuaram 1,37% e o café moído ficou 1,16% mais barato. Comer fora de casa também pesou mais no orçamento, com avanço de 0,56%, impulsionado pelos reajustes das refeições, de 0,61%, e dos lanches, de 0,66%. Os números mostram que, apesar de algumas reduções pontuais, a pressão sobre produtos essenciais continua elevada, especialmente para famílias de menor renda, que destinam uma parcela significativa de seus rendimentos à alimentação. Para esses consumidores, a diferença entre a inflação medida pelos indicadores oficiais e a percepção do custo de vida pode ser ainda mais evidente.
Carrinho cheio, bolso vazio
A preocupação com o custo de vida ganha força diante do comportamento da inflação acumulada. Nos últimos 12 meses, o IPCA-15 chegou a 4,62%, ultrapassando o teto de 4,5% da meta de inflação, estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional. O resultado representa uma aceleração em relação aos 4,47% registrados em setembro e evidencia as dificuldades para manter os preços sob controle. Entre os fatores que podem contribuir para a alta dos alimentos estão as condições climáticas adversas, especialmente as chuvas que afetam a produção e o abastecimento de hortaliças. Enquanto isso, a queda de 9,24% nas passagens aéreas e a redução de 0,89% nas tarifas de energia elétrica ajudaram a conter o índice geral. O contraste, entretanto, é evidente: despesas que apresentam alívio em determinados setores não compensam necessariamente o encarecimento dos alimentos básicos no orçamento das famílias.
Divulgados às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, os indicadores recolocam o custo de vida no centro do debate econômico e político. Para a administração Lula, conter a pressão sobre os alimentos é um desafio que envolve fatores como clima, abastecimento, custos de produção e política econômica, em um cenário no qual a população acompanha de perto cada reajuste nas prateleiras. A taxa básica de juros, a Selic, permanece em 13,75% ao ano, enquanto a projeção de inflação de 5,22% para 2026 reforça as preocupações com o cumprimento da meta. Embora a inflação geral tenha desacelerado em outubro, a elevação dos preços de itens essenciais mostra que a recuperação do poder de compra depende de uma combinação de estabilidade econômica, oferta de produtos e evolução da renda. Para milhões de brasileiros, porém, a preocupação é mais imediata: fazer o salário chegar ao fim do mês sem retirar produtos básicos do carrinho. Afinal, quando a comida fica mais cara, a inflação deixa de ser apenas um número e se transforma em um problema cotidiano que desafia qualquer governo.