Jovem de 21 anos é investigado por disparos que mataram Thiago de Mattos Teixeira, na Zona Oeste do Rio; cantora afirma que filho tentou protegê-la de agressões, mas familiares da vítima contestam a versão
Uma tragédia familiar transformou uma das vozes conhecidas da música gospel brasileira em protagonista de um drama policial marcado por acusações, versões conflitantes e uma morte violenta. O filho da cantora Gisele Nascimento, de 21 anos, é investigado pela morte do próprio tio, Thiago de Mattos Teixeira, de 37 anos, atingido por quatro disparos durante uma discussão familiar em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O episódio aconteceu no sábado, 17, na residência da ex-sogra da artista, onde estavam integrantes da família. Segundo o relato apresentado por Gisele, o jovem teria agido para impedir que ela continuasse sendo agredida pelo ex-cunhado. A vítima, que praticava boxe tailandês, chegou a ser socorrida e encaminhada ao Hospital Oeste D'Or, mas não resistiu aos ferimentos. O caso ganhou repercussão nacional depois que a cantora apareceu publicamente com marcas de lesões e afirmou que o filho havia tentado salvar sua vida. A apresentação do rapaz para prestar depoimento à polícia representa uma etapa importante da investigação, que procura esclarecer o que realmente aconteceu antes dos tiros e se houve uma situação de legítima defesa de terceiros, como sustenta a família da artista.
A confusão teria começado quando Gisele foi à casa da ex-sogra para visitar ou buscar os filhos, que vivem com o pai, Rogério Gentil, ex-marido da cantora. De acordo com a versão da artista, Thiago, irmão de Rogério, chegou ao imóvel e iniciou uma discussão que rapidamente se transformou em agressões físicas. Gisele relatou que foi empurrada, caiu no chão e recebeu golpes na cabeça e no rosto. Segundo ela, o filho tentou interromper a violência, pedindo repetidamente que o tio parasse de atacá-la. A cantora afirmou que o ex-cunhado era faixa-preta de muay thai e que as pessoas presentes não conseguiam contê-lo. Diante da situação, o jovem teria procurado uma arma pertencente ao pai, policial aposentado, e efetuado os disparos. Em entrevistas concedidas após o episódio, Gisele defendeu a atitude do filho e declarou acreditar que poderia ter morrido durante o confronto. “Meu filho me protegeu! Somente peço oração!”, escreveu nas redes sociais. A artista também afirmou ter realizado exame de corpo de delito para documentar as lesões. Sua filha Isabela e outros parentes que estavam no local apresentaram relatos semelhantes, descrevendo momentos de desespero e uma sequência de acontecimentos que, segundo eles, ocorreu rapidamente.
Versões opostas e investigação policial
A narrativa apresentada pela cantora, entretanto, é contestada por familiares de Thiago de Mattos Teixeira. A viúva da vítima, Sara Cristina, sustenta que Gisele teria entrado na residência sem autorização e que o marido apenas pediu que ela deixasse o imóvel. Outros parentes também questionaram publicamente a versão de que Thiago teria iniciado as agressões, ampliando o conflito familiar após a morte. Diante das divergências, a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) trabalha para reconstruir a sequência dos fatos, identificar as circunstâncias em que a arma foi utilizada e avaliar os depoimentos das pessoas presentes. Até a terça-feira, 20, pelo menos três testemunhas haviam sido ouvidas, e uma pistola apontada como a possível arma do crime havia sido apreendida. Os investigadores também buscavam imagens de câmeras de segurança e outros elementos que pudessem esclarecer a dinâmica do confronto. A Polícia Civil chegou a solicitar a prisão do suspeito, mas o plantão judiciário entendeu que o pedido deveria ser analisado pelo juízo competente do Tribunal do Júri. Naquele momento, não havia mandado de prisão expedido. A apresentação do jovem para depor, noticiada nesta quarta-feira, 21, acrescenta sua versão diretamente ao procedimento policial, mas não significa, por si só, que a justificativa apresentada pela defesa tenha sido confirmada pelas autoridades.
O caso levanta uma discussão delicada sobre os limites da legítima defesa e as circunstâncias em que alguém pode utilizar força para proteger outra pessoa. Pela legislação brasileira, a legítima defesa de terceiros pode afastar a ilicitude de uma conduta quando existe uma agressão injusta, atual ou iminente, e são empregados meios necessários de maneira moderada para interrompê-la. Entretanto, a simples alegação de que o jovem pretendia proteger a mãe não basta para estabelecer que os disparos foram juridicamente justificados. Caberá à investigação examinar a intensidade e a continuidade da suposta agressão, o momento em que a arma foi buscada, a sequência dos tiros e os demais elementos reunidos pela perícia. Enquanto isso, a morte de Thiago aprofunda o sofrimento de uma família dividida por acusações contraditórias e provoca forte comoção entre admiradores da cantora gospel. O corpo da vítima foi sepultado na segunda-feira, 19, no Cemitério Jardim da Saudade, em Paciência, também na Zona Oeste do Rio. Para Gisele Nascimento, o episódio representa uma tragédia pessoal de consequências ainda imprevisíveis; para os parentes de Thiago, permanece a cobrança por esclarecimentos sobre a morte. Entre a versão de uma mãe que afirma ter sido salva pelo filho e a de uma família que contesta essa justificativa, a palavra decisiva dependerá das provas reunidas pela polícia e da avaliação da Justiça.