Presidente argentino chama Lula de autoritário, critica declaração sobre mulheres em escala 6x1 e afirma esperar que eleição brasileira não seja roubada
A motosserra de Javier Milei voltou a cruzar a fronteira argentina, mas, desta vez, o alvo não foi a economia: foi o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em uma ofensiva nas redes sociais nesta terça-feira, 20, o Presidente da Argentina acusou o brasileiro de machismo, criticou sua postura política e lançou uma provocação sobre a disputa presidencial contra Flávio Bolsonaro (PL), marcada para domingo, 25. “Espero que o último truque da campanha suja deles não inclua roubar a eleição”, escreveu Milei na plataforma X (antigo Twitter), acrescentando insultos ao adversário político. A declaração foi feita depois que Lula afirmou, durante entrevista ao SBT, que a redução da jornada de trabalho beneficiaria especialmente as mulheres, porque no único dia de descanso semanal elas têm que limpar a casa que a família sujou durante a semana inteira. O comentário provocou a reação do argentino, que acusou o petista de reproduzir uma visão machista da sociedade. A publicação ampliou a troca de ataques entre os dois Presidentes e levou a rivalidade política para o centro da reta final da eleição brasileira. Apesar da gravidade da insinuação, Milei não apresentou provas de qualquer tentativa de fraude eleitoral.
A nova polêmica começou com uma declaração de Lula sobre o fim da escala de trabalho 6x1, modelo que prevê seis dias de atividade para apenas um de descanso. Ao defender a redução da jornada, o Presidente brasileiro argumentou que as mulheres seriam particularmente beneficiadas, pois frequentemente acumulam o emprego remunerado com as responsabilidades domésticas. “O dia em que ela fica em casa é o dia em que ela mais trabalha, porque ela tem que limpar a casa da semana inteira”, afirmou Lula. Milei observou a declaração como uma demonstração de machismo, e reagiu com críticas aos setores progressistas. “Os progressistas machistas... Depois, saem por aí acusando todos os seus oponentes de misóginos... A máscara desses delinquentes está caindo”, escreveu o argentino, em tradução de sua publicação original. A controvérsia envolve interpretações distintas sobre a fala presidencial: enquanto Lula procurava destacar a sobrecarga de trabalho enfrentada pelas mulheres, Milei utilizou o trecho para acusá-lo de reforçar a associação entre tarefas domésticas e responsabilidades femininas. O episódio rapidamente ultrapassou a discussão trabalhista e se transformou em mais um confronto ideológico entre dois líderes que defendem modelos políticos e econômicos profundamente diferentes.
Da motosserra à guerra eleitoral
A ofensiva de Milei não começou com a discussão sobre a jornada de trabalho. Na segunda-feira, 19, o Presidente argentino já havia chamado Lula de “autoritário” ao comentar uma declaração feita durante o debate presidencial da Band, realizado no domingo, 18. Na ocasião, o petista advertiu Flávio Bolsonaro de que, caso perdesse a eleição, ficaria sem a imunidade parlamentar associada ao mandato de senador e poderia enfrentar o avanço de investigações judiciais. Milei compartilhou o trecho nas redes sociais e criticou a postura do Presidente brasileiro. O argentino também reagiu às provocações feitas por Lula sobre seu modelo econômico, simbolizado pela motosserra utilizada como representação dos cortes de gastos públicos. Durante o confronto televisivo, Lula questionou Flávio sobre a possibilidade de adotar medidas semelhantes às implementadas na Argentina, perguntando se o candidato brasileiro já havia pedido emprestada a motosserra de Milei. Em resposta, o Presidente argentino publicou uma charge ao lado de Flávio Bolsonaro, ironizando o petista e dirigentes latino-americanos de esquerda. A aproximação política entre Milei e o candidato do PL não é recente. Em julho, o argentino participou da convenção partidária que oficializou a candidatura de Flávio, em São Paulo, ocasião em que também fez ataques contundentes ao Presidente brasileiro.
A sucessão de provocações aprofundou o desgaste diplomático entre Brasil e Argentina, países que, apesar das divergências entre seus governantes, mantêm uma das relações comerciais mais importantes da América do Sul. Os ataques anteriores de Milei levaram o governo brasileiro a reduzir o nível de representação diplomática em Buenos Aires, enquanto o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, condicionou uma normalização do relacionamento ao fim das agressões verbais contra Lula. O Presidente argentino, entretanto, continua manifestando apoio explícito a Flávio Bolsonaro e defendendo uma mudança de orientação política no Brasil. Em setembro, durante passagem por Nova Iorque para a Assembleia Geral das Nações Unidas, Milei afirmou esperar que os brasileiros abandonassem o que classificou como um caminho socialista e adotassem políticas econômicas mais liberais. Agora, com a eleição presidencial entrando em seus últimos dias, o argentino elevou o tom ao associar críticas de machismo a uma insinuação sobre a integridade da votação, sem apresentar elementos que sustentem essa suspeita. O confronto revela uma disputa que ultrapassa as fronteiras nacionais e mistura rivalidade ideológica, interesses eleitorais e tensões diplomáticas. Entre acusações de machismo, provocações sobre a motosserra e ataques à esquerda, Milei transformou sua preferência por Flávio Bolsonaro em uma ofensiva pública contra Lula. Mas, enquanto os dois Presidentes trocam farpas, a decisão sobre o futuro político do Brasil continua nas mãos dos eleitores brasileiros.