Soldado da PM é acusada de homicídio triplamente qualificado após disparar contra auxiliar de limpeza desarmada; Ministério Público pede indenização de R$ 1 milhão à família
Uma discussão que deveria ter terminado com diálogo acabou em tragédia, deixando cinco crianças sem a mãe e uma policial militar no banco dos réus. A Justiça de São Paulo aceitou a denúncia contra a soldado Yasmin Cursino Ferreira, de 22 anos, acusada de matar a auxiliar de limpeza Thawanna da Silva Salmázio, de 31 anos, durante uma abordagem em Cidade Tiradentes, na zona leste da capital paulista. O crime ocorreu na madrugada de 3 de abril, depois de um desentendimento provocado pela passagem de uma viatura policial. Thawanna, que estava desarmada, foi atingida por um tiro de pistola calibre .40 na região do abdômen e morreu após ser levada ao hospital. A decisão judicial, divulgada nesta segunda-feira, 19, transforma a militar em ré por homicídio triplamente qualificado, cometido, segundo o Ministério Público, por motivo fútil, meio cruel e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima. Além da responsabilização criminal, a Promotoria solicita uma indenização mínima de R$ 1 milhão aos familiares, que enfrentam as consequências emocionais e financeiras da perda.
A tragédia começou quando Thawanna e o marido, Luciano Gonçalves dos Santos, caminhavam por uma rua do bairro e uma viatura da Polícia Militar passou pelo casal. Segundo o relato do companheiro, o veículo trafegava em velocidade elevada, colocando pedestres em risco, o que provocou uma reclamação. Os policiais retornaram e iniciaram uma abordagem que rapidamente se transformou em discussão. Durante o desentendimento, Thawanna teria dado um tapa no rosto da soldado Yasmin, que reagiu efetuando um disparo contra a auxiliar de limpeza. A policial alegou inicialmente ter agido em legítima defesa, mas essa versão foi contestada pelas investigações. A Polícia Civil apontou desproporcionalidade na reação, enquanto a Corregedoria da PM concluiu que a militar agiu com intenção de matar. Imagens registradas pela câmera corporal de outro integrante da equipe foram consideradas importantes para a reconstrução dos acontecimentos, indicando que o tiro ocorreu sem uma ordem verbal prévia que justificasse o emprego imediato de força letal. Para os investigadores, mesmo diante da agressão relatada pela policial, não havia elementos suficientes para sustentar que a vítima representasse uma ameaça capaz de justificar o disparo.
Meia hora de agonia e uma família destruída
Um dos aspectos mais graves apontados pela acusação diz respeito à demora no atendimento da vítima. Segundo o Ministério Público, Thawanna permaneceu ferida e consciente por mais de 30 minutos antes de receber socorro, situação que teria prolongado seu sofrimento e contribuído para o desfecho fatal. A auxiliar de limpeza foi encaminhada ao Hospital Tiradentes, mas não resistiu a uma hemorragia interna aguda provocada pelo ferimento. A Promotoria considera que as circunstâncias do disparo e a ausência de atendimento imediato reforçam a gravidade da conduta atribuída à policial. A investigação também analisou o comportamento dos demais agentes presentes na ocorrência e as imagens disponíveis, buscando esclarecer a sequência dos fatos e identificar eventuais responsabilidades. A soldado chegou a ser afastada de suas funções operacionais, teve a arma apreendida e foi submetida a procedimentos de apuração nas esferas civil e militar. Posteriormente, foi indiciada por homicídio doloso qualificado, permanecendo em liberdade sob medidas cautelares. Com o recebimento da denúncia, o caso avança para uma nova etapa judicial, na qual a acusação deverá apresentar suas provas e a defesa terá oportunidade de contestá-las. Até a divulgação da decisão, os representantes da militar não haviam apresentado manifestação sobre a nova fase do processo.
A morte de Thawanna reacendeu o debate sobre a violência policial e o uso desproporcional da força em São Paulo, especialmente diante do crescimento dos registros de mortes durante intervenções de agentes de segurança. Dados do Ministério Público paulista mostram que 191 pessoas morreram em ações policiais na capital entre janeiro e setembro de 2026, o maior número para esse período desde 2020. Em 2022, haviam sido registradas 124 mortes, o que representa um aumento de aproximadamente 54% em quatro anos. Os indicadores reforçam as discussões sobre treinamento, fiscalização, utilização de câmeras corporais e cumprimento dos protocolos de abordagem, que estabelecem o uso de armas de fogo como medida extrema diante de ameaças concretas. O governador Tarcísio de Freitas já reconheceu a elevada letalidade policial no estado, embora defenda que os números sejam analisados considerando a quantidade de operações e intervenções realizadas pelas forças de segurança. No caso de Thawanna, a Justiça ainda deverá determinar, ao final do processo, se houve responsabilidade criminal da soldado, que tem direito à ampla defesa e à presunção de inocência. Para os cinco filhos deixados pela auxiliar de limpeza, entretanto, nenhuma decisão será capaz de reparar integralmente a perda. O que começou como uma reclamação sobre a velocidade de uma viatura terminou com uma vida interrompida, uma família devastada e uma pergunta que exige resposta: por que uma abordagem policial terminou em morte?