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França perde a paz e impõe toque de recolher após onda de violência e saques

19/10/2026 • 19:24 • Por Felipe Masid

Depois de um fim de semana marcado por manifestações violentas, saques e confrontos com policiais, o governo francês anunciou nesta segunda-feira a adoção de toques de recolher em diferentes cidades

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Protestos contra o alto custo de vida provocam confrontos, milhares de prisões e destruição em várias cidades, obrigando o governo Macron a restringir a circulação e reforçar a segurança

A França, conhecida mundialmente por suas luzes, monumentos e avenidas elegantes, mergulhou em um cenário de barricadas, incêndios e ruas tomadas pela tensão. Depois de um fim de semana marcado por manifestações violentas, saques e confrontos com policiais, o governo francês anunciou nesta segunda-feira, 19, a adoção de toques de recolher em diferentes cidades, incluindo áreas de Paris, na tentativa de recuperar o controle da situação. O país enfrenta uma das mais graves ondas recentes de agitação social, desencadeada por protestos contra o aumento do custo de vida, a deterioração dos serviços públicos e as dificuldades econômicas enfrentadas pela população. Mais de 500 mil pessoas participaram das manifestações, que terminaram com aproximadamente 2.400 detidos, quase mil agentes de segurança feridos e a morte de um manifestante, segundo informações divulgadas pela imprensa francesa. A violência atingiu estabelecimentos comerciais, prédios públicos e pontos turísticos, transformando regiões tradicionalmente movimentadas em áreas de policiamento intensivo e colocando o governo do Presidente Emmanuel Macron diante de uma nova crise política e de segurança.

As primeiras restrições foram estabelecidas em cidades do norte do país, como Lille, Douai, Wattignies e Denain, onde menores de idade ficaram proibidos de circular em determinadas áreas entre 20h e 6h, inicialmente durante duas noites. Na capital francesa, as autoridades também determinaram medidas de segurança em regiões movimentadas, como a Place de la République e Les Halles, com restrições noturnas para impedir novos confrontos e episódios de vandalismo. Em Marselha, uma das localidades mais afetadas, foram adotadas proibições temporárias de aglomerações e manifestações. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu defendeu a aplicação de medidas parciais e localizadas, evitando, pelo menos neste momento, a decretação de um estado de emergência nacional. A decisão ocorreu após grupos incendiarem lixeiras, bicicletas e outros objetos, depredarem edifícios públicos e invadirem estabelecimentos comerciais. Segundo estimativas divulgadas pelas autoridades, cerca de 3 mil empresas foram atingidas pelos distúrbios, incluindo lojas de luxo e pequenos negócios que sofreram prejuízos expressivos. Em Paris, vitrines de marcas internacionais foram destruídas, enquanto comerciantes recorreram a barreiras de proteção e segurança privada para tentar evitar novos ataques.

Macron sob pressão e ruas em ebulição

A escalada da violência provocou uma crise dentro do próprio governo francês. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, reconheceu que as forças de segurança perderam o controle em algumas grandes cidades, apesar da mobilização de aproximadamente 60 mil policiais e agentes de segurança durante as manifestações de sábado, 17. Diante das críticas à atuação das autoridades, Nuñez apresentou seu pedido de demissão, mas Emmanuel Macron recusou a saída do ministro, alegando a necessidade de preservar a continuidade do comando policial em um momento de instabilidade. O Presidente exigiu explicações sobre falhas no planejamento das operações e determinou a adoção de novas estratégias para conter os atos violentos. Já Lecornu atribuiu parte dos confrontos à atuação de grupos de ultraesquerda e criminosos que, segundo sua avaliação, estariam interessados em desestabilizar o país. A situação também afetou o funcionamento de instituições culturais e educacionais. O Museu do Louvre, um dos principais pontos turísticos do mundo, permaneceu fechado nesta segunda-feira devido a bloqueios promovidos por estudantes, enquanto universidades registraram novas mobilizações. O governo anunciou ainda medidas emergenciais para auxiliar comerciantes prejudicados, incluindo mecanismos de compensação salarial destinados a preservar empregos durante a recuperação dos estabelecimentos.

A crise ultrapassa a questão da segurança pública e revela um ambiente de crescente insatisfação com os rumos econômicos e sociais da França. Os protestos, impulsionados também pelo movimento dos coletes amarelos, refletem reclamações relacionadas à perda do poder de compra, aos preços elevados, à qualidade dos serviços públicos e às condições de trabalho e educação. Organizadores já anunciaram novas manifestações para o próximo sábado e para 31 de outubro, enquanto entidades sindicais convocaram uma mobilização nacional para 5 de novembro, ampliando a possibilidade de novos episódios de tensão. O governo francês tenta equilibrar o direito constitucional à manifestação com a necessidade de impedir saques, depredações e agressões, mas enfrenta críticas tanto pela resposta policial quanto pela incapacidade de atender às reivindicações sociais. Outros países europeus passaram a recomendar cautela aos cidadãos que pretendem viajar à França, especialmente para regiões afetadas pelos confrontos. Com o comércio prejudicado, a população apreensiva e o governo pressionado, a França vive o desafio de restaurar a ordem sem aprofundar a insatisfação popular. No país que consagrou a liberdade como um de seus maiores símbolos, o toque de recolher tornou-se a expressão mais visível de uma crise que ainda está longe de terminar.

Felipe Masid