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Opinião

Europa em chamas: Destuição da memória, crise da autoridade e os limites da tolerância

19/10/2026 • 15:44 • Por Felipe Masid

O incêndio que devastou a Prefeitura histórica de Limoges, na França, em 17 de outubro, representa muito mais do que a destruição de um edifício público. Inaugurado em 1883, o Hôtel de Ville, de arquitetura neorrenascentista, sobreviveu a duas guerras mundiais, mas teve sua cobertura destruída, a torre do relógio parcialmente derrubada e grande parte da fachada comprometida durante os distúrbios. O episódio, classificado pelas autoridades locais como uma catástrofe patrimonial, simboliza uma contradição inquietante: um monumento que atravessou gerações e conflitos históricos foi severamente danificado pela violência ocorrida dentro da própria sociedade que deveria preservá-lo.

Limoges, entretanto, não foi um caso isolado. Em Lyon, o pavilhão do escritório de turismo municipal, localizado na Place Bellecour, foi incendiado. Em Marselha, manifestantes invadiram o saguão da prefeitura, provocaram danos e derrubaram um busto de Marianne, representação simbólica da República Francesa. Em Bordeaux, a residência oficial da prefeita regional foi depredada, enquanto, em Lille, houve invasão e danos no interior da prefeitura. Em Angers, prédios públicos também foram alvo de invasões e depredações. São ataques a espaços que pertencem à coletividade e que deveriam permanecer protegidos de disputas políticas e ideológicas.

É necessário distinguir o direito legítimo de protestar dos atos criminosos praticados sob a cobertura de uma manifestação. Milhares de pessoas podem ocupar as ruas pacificamente para reivindicar melhores condições de vida, serviços públicos e mudanças políticas. Isso não confere a ninguém autorização para incendiar edifícios, destruir monumentos, saquear estabelecimentos ou intimidar cidadãos. Quando grupos transformam a mobilização em instrumento de destruição, prejudicam a própria causa que afirmam defender e atingem trabalhadores, comerciantes, servidores públicos e contribuintes. Centenas de lojas comerciais foram destruídas, saqueadas, deixando seus proprietários, pagadores de impostos e base financeira de varias famílias, totalmente desassistidos pelo poder público. A resposta estatal deve ser firme, proporcional e orientada pela identificação dos responsáveis, com investigação, responsabilização individual e respeito ao devido processo legal.

A crise também impõe uma reflexão sobre a capacidade dos governos europeus de administrar tensões sociais, fluxos migratórios e diferenças culturais. Políticas de imigração precisam ser construídas com planejamento, critérios transparentes e consideração pela capacidade real de acolhimento, incluindo moradia, emprego, educação, segurança e integração. A proteção humanitária de refugiados não elimina a responsabilidade dos Estados de controlar suas fronteiras e organizar a permanência de estrangeiros conforme a legislação. Quando o planejamento é insuficiente e os governos não conseguem responder às preocupações da população, aumenta o risco de sobrecarga dos serviços, segregação social e perda de confiança nas instituições. Esses problemas, contudo, precisam ser demonstrados por dados e não atribuídos automaticamente à presença de imigrantes.

A convivência multicultural exige reciprocidade. Nenhuma origem nacional, tradição ou crença religiosa pode justificar ameaças, agressões, coerção ou tentativas de impor costumes pela intimidação. Quem vive em outro país deve respeitar suas leis, assim como as autoridades devem proteger os direitos fundamentais de todos, nacionais e estrangeiros. A liberdade religiosa e a diversidade cultural são compatíveis com a defesa da igualdade perante a lei, dos direitos das mulheres, da liberdade de expressão e da segurança pública. O que não se pode aceitar é que comportamentos intolerantes sejam relativizados por conveniência política ou que preocupações legítimas com a integração sejam automaticamente tratadas como preconceito. Ao mesmo tempo, a responsabilidade por atos concretos deve recair sobre seus autores, e não sobre comunidades inteiras.

A destruição de Limoges e os ataques a outros edifícios públicos, esculturas e praças, revelam uma crise que não se resolve apenas com reparos materiais ou medidas emergenciais de segurança. O patrimônio histórico reúne a memória, a identidade e o esforço de gerações que construíram instituições destinadas a servir à sociedade. Sua perda representa um dano cultural que ultrapassa o custo financeiro da reconstrução. Cabe aos governos proteger esses bens, prevenir a violência e assegurar que o direito de manifestação não seja convertido em licença para a destruição. Também cabe à sociedade cobrar políticas migratórias responsáveis, integração efetiva, aplicação imparcial das leis e transparência na gestão pública, sem confundir solidariedade humanitária com ausência de critérios ou pluralismo com tolerância à violência.

A Europa precisa decidir como conciliar abertura, segurança, liberdade, e preservação de sua identidade histórica sem abandonar os princípios democráticos que sustentam suas instituições. Acolher pessoas em situação de vulnerabilidade não significa renunciar ao controle migratório; respeitar culturas diferentes não significa aceitar a imposição de costumes; e garantir a liberdade de protesto não significa tolerar a destruição do patrimônio coletivo. O incêndio da prefeitura de Limoges, que resistiu a duas guerras mundiais, deve servir de alerta sobre o preço da incapacidade de proteger aquilo que pertence a todos. Uma sociedade verdadeiramente democrática não se mede apenas pela liberdade que concede, mas também pela responsabilidade com que protege seus cidadãos, suas instituições, sua memória e o direito das próximas gerações de receber esse legado intacto.

Felipe Masid

Felipe Masid é jornalista e gestor público, formado em Direito, e Administração de Empresas, com especialização em Gestão e Estratégia em Agronegócios pela UFRRJ. Atualmente é mestrando em Controladoria e Gestão Pública.