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Esporte

Gol eleitoral? Caixa suspende dívida do Corinthians a uma semana do segundo turno de Lula

17/10/2026 • 11:53 • Por Leo Pinheiro

O banco estatal acertou com o clube paulista a suspensão por um ano da cobrança da dívida de R$ 630 milhões referente à construção do Itaquerão

Foto: Divulgação/SCCP

Torcedor declarado do Timão, Presidente tenta a reeleição após ficar atrás de Flávio Bolsonaro no primeiro turno; acordo milionário levanta questionamentos sobre o momento político da decisão

No futebol, o momento do gol pode ser tão importante quanto a jogada. E, a apenas uma semana do segundo turno das eleições presidenciais, uma decisão envolvendo o Corinthians e a Caixa Econômica Federal chama a atenção não apenas pelo impacto financeiro, mas também pelo calendário político. O banco estatal acertou com o clube paulista a suspensão por um ano da cobrança da dívida de R$ 630 milhões referente à construção do Itaquerão, além de interromper a retenção de receitas de bilheteria e premiações. A medida ocorre justamente quando o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), torcedor declarado do Corinthians, disputa a reeleição contra Flávio Bolsonaro (PL) e busca reverter a desvantagem registrada no primeiro turno. A "coincidência" entre o alívio financeiro concedido ao clube e a proximidade das urnas acrescenta um componente político à negociação, embora não haja comprovação de que o acordo tenha sido motivado por interesses eleitorais.

A negociação representa um importante respiro para o Corinthians, que enfrenta uma das maiores crises financeiras de sua história, com endividamento total próximo de R$ 2,8 bilhões. Pelo contrato de financiamento firmado com a Caixa, o clube precisava destinar 55% da arrecadação de bilheteria e 50% das premiações conquistadas em competições ao pagamento da dívida da Arena. Com a suspensão temporária dessas retenções, a diretoria poderá utilizar integralmente os recursos para despesas operacionais, salários e compromissos pendentes. O benefício chega em um período de dificuldades financeiras e atrasos de pagamentos, mas também em um momento eleitoral sensível para Lula, que tenta ampliar sua votação entre diferentes segmentos do eleitorado, inclusive em São Paulo, estado com o maior número de eleitores do país e onde o Corinthians possui uma de suas maiores bases de torcedores.

Entre a bola e a urna

O acordo foi encaminhado após reuniões entre representantes do Corinthians e da Caixa, incluindo um encontro realizado nesta sexta-feira, 16, em Brasília, com a participação do presidente do clube, Osmar Stabile, de dirigentes do banco, do ministro Guilherme Boulos e de representantes da Gaviões da Fiel. A presença de integrantes do governo federal nas conversas, às vésperas da eleição, reforça a dimensão política que pode ser atribuída ao episódio, embora a negociação tenha fundamentos financeiros e contratuais próprios. Entre as alternativas discutidas para uma solução definitiva está a possibilidade de a Caixa assumir os direitos comerciais sobre o nome da Neo Química Arena, atualmente vinculados à Hypera Pharma. A diretoria corintiana estima que os chamados naming rights possam alcançar aproximadamente R$ 70 milhões por temporada, valor que poderia contribuir para a redução do saldo devedor. As partes também assinaram um termo de confidencialidade para aprofundar as tratativas.

Apesar da suspensão das cobranças, a dívida de R$ 630 milhões não foi perdoada, e o Corinthians continuará obrigado a buscar uma solução para o financiamento do estádio, cujo contrato prevê pagamentos até dezembro de 2041. O clube já desembolsou aproximadamente R$ 600 milhões desde a inauguração da Arena, em 2014, mas segue pressionado pelo peso dos juros e das obrigações financeiras. Politicamente, o anúncio acontece em uma semana decisiva para Lula, que tenta conquistar novos apoios e virar votos após terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro. A proximidade da eleição pode alimentar interpretações sobre eventuais dividendos eleitorais da medida entre os milhões de torcedores corintianos, mas não há evidências de que a suspensão tenha sido condicionada a apoio político ou que produza transferência de votos. Enquanto o Timão comemora o fôlego financeiro, o Presidente entra nos últimos dias de campanha tentando uma virada nas urnas. Resta saber se o alívio nas contas do Corinthians terá algum reflexo no placar eleitoral ou se ficará restrito às quatro linhas da negociação bancária.

Leo Pinheiro