Após manter benefício congelado durante seu terceiro mandato, Lula alega desconhecimento da situação; último aumento do valor básico havia ocorrido no governo Jair Bolsonaro, e nova correção chega às vésperas do segundo turno
O Presidente que fez do combate à pobreza uma de suas principais bandeiras políticas parece ter perdido de vista justamente um dos programas sociais mais importantes do país. Após quase quatro anos à frente do Palácio do Planalto, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que não sabia que o Bolsa Família permanecia sem reajuste desde 2023. A declaração foi feita nesta quinta-feira, 15, durante sabatina na TV Globo, quando o candidato à reeleição foi questionado sobre a demora para corrigir o benefício. A explicação chama a atenção porque o programa atende milhões de famílias em situação de vulnerabilidade e ocupa posição central no discurso político do próprio Presidente. Enquanto os preços de alimentos, medicamentos, transporte, e outros produtos essenciais pressionavam o orçamento doméstico, o valor mínimo de R$ 600 permanecia inalterado. O patamar havia sido estabelecido durante o governo do ex-Presidente Jair Bolsonaro, em 2022, com o Auxílio Brasil, posteriormente substituído pelo Bolsa Família. Embora o governo Lula tenha criado adicionais para determinados grupos familiares em 2023, não promoveu uma correção geral do valor básico até a reta final da campanha eleitoral de 2026. A alegação de desconhecimento, portanto, levanta uma pergunta inevitável: como o chefe do Executivo deixou de acompanhar, durante praticamente todo o mandato, a evolução financeira de uma das maiores vitrines sociais de sua administração?
Durante a entrevista, Lula declarou que ficou surpreso ao descobrir a ausência de atualização do benefício e afirmou ter cobrado providências de sua equipe. "Eu não sabia. É impensável", disse o Presidente, atribuindo aos ministros a responsabilidade por não terem apresentado anteriormente uma proposta de correção. A justificativa, entretanto, expõe uma contradição administrativa: se o programa é considerado prioridade absoluta do governo, sua defasagem deveria integrar o acompanhamento permanente das políticas públicas e das decisões orçamentárias. Somente em setembro, a poucos dias do primeiro turno, o Palácio do Planalto anunciou um reajuste de aproximadamente 15%, elevando o valor mínimo de R$ 600 para R$ 691, e o benefício médio de R$ 675 para R$ 777. A medida deverá alcançar cerca de 19,3 milhões de famílias, com impacto estimado de R$ 5,8 bilhões ainda em 2026 e de R$ 22 bilhões no próximo ano. O anúncio representa um alívio financeiro para os beneficiários, mas também evidencia que a recomposição poderia ter sido debatida com maior antecedência. Afinal, o próprio governo dispõe de estruturas técnicas, relatórios econômicos e mecanismos de acompanhamento capazes de identificar a perda do poder de compra da população mais pobre, sem depender de uma descoberta presidencial às vésperas de uma eleição.
Esquecimento conveniente?
O calendário escolhido para colocar o reajuste em prática acrescentou um componente político à controvérsia. A correção foi anunciada em 17 de setembro, apenas 17 dias antes do primeiro turno, e os pagamentos com os novos valores estão previstos para começar em 19 de outubro, seis dias antes da votação decisiva entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL), marcada para o dia 25. A proximidade entre o aumento e a disputa presidencial alimenta críticas sobre o possível uso eleitoral de uma política pública que deveria ser administrada com planejamento e continuidade, independentemente das conveniências de campanha. Lula rejeita qualquer relação entre a medida e as eleições, sustentando que autorizou a correção assim que tomou conhecimento da situação e da disponibilidade de recursos no Orçamento. A explicação, contudo, contrasta com o fato de que integrantes do próprio governo já discutiam publicamente a possibilidade de reajuste havia mais de um ano. Em fevereiro de 2025, o ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, chegou a mencionar o assunto, demonstrando que a necessidade de atualização não era exatamente uma novidade nos corredores de Brasília. Nesse contexto, a declaração presidencial de desconhecimento não esclarece por que a decisão demorou tanto, nem por que somente ganhou prioridade quando a campanha entrou em sua fase mais decisiva. A coincidência temporal, por si só, não comprova finalidade eleitoral, mas exige explicações consistentes sobre os critérios técnicos e orçamentários utilizados.
A controvérsia também recoloca em discussão as responsabilidades políticas de Lula pela condução do Bolsa Família. O Presidente costuma apresentar o programa como símbolo de sua trajetória e de seu compromisso com a população de baixa renda, mas a manutenção do valor básico sem atualização geral durante quase quatro anos enfraquece esse discurso. É importante distinguir que o último aumento do piso para R$ 600 ocorreu ainda na administração de Jair Bolsonaro, por meio do Auxílio Brasil, enquanto o governo petista retomou a denominação Bolsa Família e acrescentou benefícios complementares para crianças, gestantes e outros grupos específicos. Essas mudanças ampliaram os pagamentos recebidos por determinadas famílias, mas não substituíram uma revisão geral do piso diante da inflação acumulada. Ao responsabilizar ministros pela demora, Lula também abre espaço para críticas sobre sua capacidade de supervisão administrativa, já que a definição de prioridades e a coordenação das políticas sociais são atribuições centrais da Presidência da República. Mais do que discutir o valor anunciado, o episódio exige respostas sobre os motivos da longa espera, a disponibilidade efetiva de recursos nos anos anteriores e os critérios que levaram à decisão somente agora. Para milhões de brasileiros que dependem do benefício para despesas essenciais, a questão ultrapassa a disputa partidária: se o Bolsa Família era uma prioridade do governo, por que seu reajuste só se tornou urgente quando o Presidente precisava conquistar votos para permanecer no poder?