Ex-Presidente e esposa, Cilia Flores, comparecem algemados à Justiça norte-americana e negam participação em esquema de repressão que teria submetido opositores a choques elétricos, asfixia e violência sexual
O homem que comandou a Venezuela durante mais de uma década e acumulou denúncias internacionais de repressão política agora precisa responder pessoalmente a algumas das acusações mais graves atribuídas ao seu governo. Nicolás Maduro, de 63 anos, e sua esposa, Cilia Flores, de 70, compareceram nesta quinta-feira, 15, a um tribunal federal de Manhattan, em Nova Iorque, para enfrentar novas acusações de conspiração para cometer tortura contra adversários políticos. Levados à audiência com os tornozelos acorrentados, os dois negaram responsabilidade pelos crimes descritos pela Promotoria norte-americana. Maduro classificou as denúncias como falsas, enquanto Cilia declarou formalmente sua inocência. Preso desde janeiro, quando foi capturado por forças militares dos Estados Unidos em Caracas, o ex-Presidente enfrenta um processo que ultrapassa as acusações de narcotráfico e coloca sob investigação judicial métodos de perseguição utilizados durante seu período no poder. A denúncia apresenta um quadro de violência institucional, no qual órgãos de segurança teriam sido empregados não apenas para combater adversários, mas também para intimidar, castigar e silenciar pessoas consideradas ameaças à permanência do governo.
A gravidade das acusações está nos métodos que, segundo os procuradores federais, teriam sido utilizados contra presos políticos e cidadãos norte-americanos detidos na Venezuela. Espancamentos, choques elétricos, sufocamento, simulações de afogamento, violência sexual, e ameaças contra familiares aparecem entre as práticas descritas pela acusação, que atribui a Maduro conhecimento e participação na estrutura repressiva. Os investigadores sustentam que o ex-Presidente teria recebido informações sobre abusos e, em determinadas situações, recomendado procedimentos empregados contra prisioneiros. Cilia Flores também é apontada como participante do esquema, com suspeitas de ter ordenado agressões contra pessoas específicas. Entre as vítimas mencionadas estão militares acusados de conspirar contra o governo e pelo menos três cidadãos dos Estados Unidos, um dos quais teria sido submetido à privação de alimentos e água, além de tortura física e psicológica. Caso sejam comprovadas, as denúncias poderão demonstrar que a violência contra opositores não se limitava a excessos isolados de agentes de segurança, mas integrava uma estrutura de repressão vinculada aos níveis superiores do poder venezuelano.
Repressão sob julgamento
A audiência foi marcada pela resistência de Maduro em responder diretamente às perguntas do juiz Alvin Hellerstein sobre sua responsabilidade criminal. Em duas oportunidades, o ex-Presidente evitou declarar expressamente se era culpado ou inocente, preferindo contestar a veracidade das acusações apresentadas pela Justiça norte-americana. Diante da ausência de uma resposta objetiva, o magistrado determinou o registro de uma declaração de inocência em seu nome. Cilia Flores, por sua vez, afirmou ter lido a denúncia traduzida para o espanhol e negou participação nos crimes. O casal também responde a acusações relacionadas ao narcoterrorismo, à conspiração para importar cocaína e ao uso de armamentos pesados. A defesa sustenta que os dois possuem imunidades decorrentes dos cargos oficiais que exerceram, argumento que deverá ser examinado pelo tribunal. O processo coloca em discussão a responsabilidade individual de antigos integrantes da cúpula venezuelana por práticas denunciadas há anos por organizações de direitos humanos. Embora as acusações ainda dependam de comprovação judicial, sua gravidade reforça a necessidade de esclarecer quem autorizou, executou e permitiu a continuidade dos abusos relatados pelas vítimas.
O julgamento de Nicolás Maduro e Cilia Flores está previsto para começar em 14 de junho de 2027, quando a Justiça norte-americana deverá examinar as provas reunidas pelos promotores e os argumentos apresentados pela defesa. A acusação de conspiração para cometer tortura prevê pena máxima de 20 anos de prisão, enquanto outros crimes incluídos no processo podem resultar em punições ainda mais severas, inclusive prisão perpétua. O caso também reacende o debate internacional sobre as violações de direitos humanos cometidas durante o governo venezuelano, período marcado por denúncias de prisões arbitrárias, perseguição política e violência contra opositores. Organizações independentes e organismos internacionais documentaram abusos atribuídos às forças de segurança do país, tornando a responsabilização dos envolvidos uma reivindicação recorrente de vítimas e familiares. Desde a captura de Maduro, a antiga Vice-Presidente Delcy Rodríguez assumiu o comando da Venezuela, em meio a mudanças nas relações com Washington. Mais do que definir o futuro judicial do ex-Presidente e de sua esposa, o processo poderá esclarecer até que ponto a repressão denunciada era conhecida e dirigida pela cúpula do antigo governo. A gravidade dos relatos exige investigação rigorosa, respeito às garantias de defesa e responsabilização de todos aqueles cuja participação criminosa venha a ser comprovada.