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Fogo amigo, tragédia real: PMs confundem colegas com criminosos e matam subtenente do Bope no Rio

12/10/2026 • 08:22 • Por João Vieira

O confronto também afetou a circulação de veículos na região. De acordo com o Centro de Operações Rio, duas faixas da Avenida Ayrton Senna foram interditadas por volta das 6h30

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Confronto entre equipes do Bope e do 18º BPM deixa um policial morto e cinco feridos na Gardênia Azul; vítima era irmão de sargento morto na megaoperação da Penha em 2025

Uma operação policial terminou em tragédia na manhã de domingo, 11, quando agentes da própria Polícia Militar trocaram tiros na Gardênia Azul, na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro. O subtenente Gláucio Marcelo Fonseca da Silva, de 54 anos, integrante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), morreu após ser atingido durante um confronto envolvendo policiais do 18º BPM, de Jacarepaguá. Outros cinco agentes ficaram feridos. Segundo informações divulgadas pela corporação, a troca de tiros ocorreu na Rua Guilherme Moreira, na divisa da Gardênia Azul com a Freguesia, quando uma equipe do Bope realizava uma abordagem a um veículo. Policiais do batalhão responsável pelo patrulhamento da região teriam observado a movimentação e, devido à baixa luminosidade, confundido a ação com uma atividade criminosa. O que deveria ser uma intervenção policial terminou em disparos entre integrantes da mesma instituição. A principal hipótese investigada é a de fogo amigo, expressão utilizada quando agentes de uma mesma força acabam atingindo uns aos outros por erro de identificação. A ocorrência provocou forte repercussão pela gravidade do resultado e pelas circunstâncias que ainda precisam ser esclarecidas. Embora a Polícia Militar tenha apresentado uma explicação preliminar para o confronto, a sequência exata dos disparos, as condições de identificação das equipes e os procedimentos de comunicação utilizados durante a operação continuam sendo objeto de investigação.

De acordo com os relatos iniciais, os policiais do 18º BPM teriam recebido informações sobre a presença de homens armados na região e se deslocado até o local para verificar a denúncia. Ao chegarem, encontraram agentes do Bope que atuavam durante uma abordagem, em circunstâncias que podem ter dificultado o reconhecimento imediato dos militares. Informações divulgadas pela imprensa apontam que a equipe especializada utilizava uma viatura descaracterizada, fator que também será considerado na apuração. A troca de tiros deixou uma viatura policial com diversas marcas de disparos e provocou uma mobilização de equipes de socorro e perícia. Gláucio Marcelo e os demais policiais atingidos foram encaminhados ao Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, mas o subtenente não resistiu. Segundo informações divulgadas pela unidade hospitalar, dois dos agentes feridos precisaram passar por cirurgia e apresentavam quadro estável, enquanto outros três receberam alta após avaliação médica. O confronto também afetou a circulação de veículos na região. De acordo com o Centro de Operações Rio, duas faixas da Avenida Ayrton Senna foram interditadas por volta das 6h30, na altura do Espaço Hall, no sentido Linha Amarela. A Rua Guilherme Moreira também foi isolada para o trabalho dos investigadores, que recolheram vestígios e buscaram informações capazes de esclarecer a dinâmica do tiroteio. A ocorrência levanta questionamentos sobre a comunicação entre unidades policiais, a identificação de equipes em campo e os protocolos adotados durante operações simultâneas, especialmente em áreas onde a presença de grupos armados exige respostas rápidas e decisões tomadas sob forte tensão.

Dois irmãos, duas tragédias

A morte de Gláucio Marcelo ganhou uma dimensão ainda mais dolorosa depois que foi revelado que ele era irmão do sargento Héber Carvalho da Fonseca, também integrante do Bope, morto em outubro de 2025 durante a Operação Contenção, realizada nos complexos da Penha e do Alemão. A operação, que terminou com 122 mortos, ficou marcada como a mais letal da história do país. Menos de um ano depois daquela tragédia, a família voltou a perder um de seus integrantes em uma ocorrência policial. Gláucio tinha 26 anos de serviço na Polícia Militar, a maior parte deles dedicada ao Bope, e era pai de três filhos. Conhecido entre os colegas pela experiência em operações especiais, ele costumava compartilhar registros de sua rotina profissional nas redes sociais. No dia 28 de setembro, havia publicado uma homenagem ao irmão, relatando a saudade que ainda sentia e recordando momentos vividos pelos dois. A mensagem ganhou repercussão após sua morte, sobretudo porque expressava a dificuldade de conviver com a perda de Héber. A viúva do sargento, Jéssica Araújo, também se manifestou nas redes sociais, lamentando que a família enfrentasse novamente uma tragédia em outubro. O episódio provocou comoção entre colegas de farda e pessoas que acompanhavam a trajetória dos irmãos, ambos ligados a uma das unidades mais conhecidas da Polícia Militar fluminense. A corporação informou que o governo estadual prestaria assistência aos policiais atingidos e a seus familiares. A coincidência das duas mortes, separadas por menos de um ano, transformou a ocorrência da Gardênia Azul em uma história de perdas sucessivas para uma mesma família.

A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) e a Corregedoria Interna da Polícia Militar, por meio da 2ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar, ficaram responsáveis por investigar as circunstâncias do confronto. Entre os principais pontos a serem esclarecidos estão a comunicação entre o Bope e o 18º BPM, a identificação dos agentes durante a abordagem, o uso de veículos descaracterizados e a sequência dos disparos que resultaram na morte do subtenente. Os investigadores também deverão analisar os vestígios recolhidos no local, ouvir os policiais envolvidos e confrontar os depoimentos com as informações técnicas disponíveis. A hipótese de erro de identificação é sustentada por relatos preliminares e por informações divulgadas pela própria corporação, mas a apuração deverá estabelecer as responsabilidades individuais e verificar se os protocolos operacionais foram cumpridos. O caso evidencia os riscos de ações policiais realizadas sem reconhecimento adequado entre equipes que atuam na mesma região, uma situação que pode colocar em perigo tanto os próprios agentes quanto os moradores. A tragédia também reacende a discussão sobre a necessidade de aperfeiçoar procedimentos de coordenação, identificação e comunicação durante intervenções de segurança pública. Para a família de Gláucio Marcelo, entretanto, as consequências são irreversíveis: depois de perder Héber na megaoperação de 2025, agora enfrenta a morte de outro integrante do Bope. O tiroteio da Gardênia Azul deixa uma pergunta que a investigação terá de responder: como uma ação policial terminou com agentes da mesma corporação disparando uns contra os outros? O esclarecimento das circunstâncias será fundamental para identificar eventuais falhas e evitar que episódios semelhantes voltem a ocorrer.

João Vieira