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Política

O medo como arma: Campanha de Lula aposta em ameaças e provoca reação de Flávio Bolsonaro

11/10/2026 • 09:25 • Por Leo Pinheiro

A campanha de Flávio Bolsonaro decidiu criar um espaço específico para contestar acusações e ampliar as respostas no horário eleitoral gratuito

Foto: Reprodução/Instagram

PT intensifica propaganda sobre alegadas perdas de direitos e benefícios sociais, enquanto candidato do PL prepara ofensiva digital, eleitoral e jurídica para contestar as acusações

Quando faltam argumentos para tranquilizar o eleitor, o medo pode se transformar em uma poderosa ferramenta de campanha. A estratégia adotada por Lula (PT) no segundo turno da eleição presidencial de 2026 passou a explorar o receio de que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) provoque cortes em aposentadorias, programas sociais, e direitos trabalhistas. A ofensiva, descrita pela campanha adversária como uma “campanha do medo”, levou o senador a organizar uma reação emergencial para contestar as mensagens, e apresentar sua própria versão sobre os efeitos das propostas econômicas em discussão. Depois de terminar o primeiro turno com 45,16% dos votos válidos, atrás dos 47,03% obtidos por Flávio, Lula intensificou a comparação entre seu governo e os riscos que atribui à candidatura rival. O problema dessa abordagem é que advertências sobre consequências futuras não equivalem, por si só, à comprovação de que essas consequências ocorrerão. Ao apresentar suposições como ameaças concretas, uma campanha pode deslocar o debate das propostas efetivamente anunciadas para cenários que ainda dependem de decisões políticas, aprovação legislativa e condições econômicas. A discussão sobre o futuro dos programas sociais é legítima e necessária, mas exige dados, compromissos verificáveis, e explicações sobre financiamento. Transformá-la em uma sucessão de mensagens alarmantes corre o risco de aumentar a ansiedade da população sem esclarecer quais medidas estão realmente previstas.

A principal controvérsia envolve a proposta de ajuste fiscal de R$ 250 bilhões associada à equipe econômica de Flávio Bolsonaro. A campanha petista utiliza esse valor para alarmar sobre supostos impactos em programas como o Farmácia Popular e o Minha Casa, Minha Vida, além de aposentadorias e outras despesas sociais. Entretanto, a existência de uma meta de redução de gastos não demonstra automaticamente que esses benefícios serão eliminados ou reduzidos. Para estabelecer essa relação, seria necessário identificar quais despesas sofreriam alterações, quais medidas dependeriam do Congresso Nacional, e de que maneira seriam preservados os direitos previstos em lei. A equipe de Flávio contesta as acusações, e afirma que pretende manter programas sociais e conceder reajustes reais às aposentadorias. Essas declarações também precisam ser acompanhadas de propostas detalhadas, porque a promessa de preservar benefícios enquanto se reduzem despesas públicas exige explicações consistentes. A crítica à comunicação de Lula está justamente na distância que pode existir entre um risco apresentado na propaganda e uma consequência demonstrada por documentos ou medidas concretas. A utilização de imagens emocionalmente apelativas, como a de uma criança encontrando uma arma de fogo em casa, amplia essa controvérsia ao transportar o debate para situações de grande impacto psicológico. Embora seja legítimo discutir políticas de armamento e seus efeitos sobre a segurança, a propaganda eleitoral precisa permitir que o público diferencie fatos comprovados, interpretações políticas e projeções sobre um eventual governo adversário.

O medo em julgamento

Diante da ofensiva petista, a campanha de Flávio Bolsonaro decidiu reforçar sua comunicação digital, criar um espaço específico para contestar acusações e ampliar as respostas no horário eleitoral gratuito. A estratégia inclui também ações perante o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), especialmente contra conteúdos que os advogados do candidato classificam como falsos ou enganosos. Um dos principais alvos foi o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), que reuniu aproximadamente 3,2 milhões de seguidores em menos de uma semana. A defesa de Flávio pediu a retirada do canal, alegando a circulação de acusações relacionadas a supostas ligações com milícias, ao fim das aposentadorias, e a questões religiosas envolvendo Nossa Senhora Aparecida. Janones contestou a iniciativa. A dimensão alcançada por esse canal evidencia como mensagens de forte apelo emocional podem circular rapidamente, e atingir milhões de eleitores, tornando a verificação das informações ainda mais importante. Isso não significa que toda crítica feita pelo PT seja falsa, nem que toda contestação apresentada pelo PL esteja correta. A definição depende da análise individual de cada conteúdo, das provas disponíveis e das decisões da Justiça Eleitoral. O PT, por sua vez, também apresentou reclamações envolvendo plataformas digitais, afirmando enfrentar dificuldades para impulsionar publicações da campanha presidencial. Nesse ambiente, a disputa deixou de ocorrer apenas entre propostas e passou a envolver a própria credibilidade dos canais utilizados para alcançar o eleitorado. A atuação do TSE deverá distinguir manifestações políticas legítimas de conteúdos que ultrapassem os limites estabelecidos pela legislação eleitoral.

A insistência em associar o adversário a perdas futuras coloca a campanha de Lula diante de uma questão fundamental: até que ponto alertar sobre riscos representa informação ao eleitor e em que momento passa a ser uma tentativa de mobilizá-lo principalmente pelo temor? A diferença está na qualidade das evidências apresentadas. Quando uma propaganda afirma que determinada proposta poderá afetar políticas sociais, deve explicar por que isso aconteceria, quais compromissos do candidato sustentam a conclusão e quais alternativas existem. Sem esse detalhamento, a comunicação pode estimular apreensão sem oferecer elementos suficientes para uma avaliação independente. A responsabilidade, entretanto, não se limita ao PT. Flávio Bolsonaro também precisa esclarecer como pretende executar o ajuste fiscal anunciado, quais despesas seriam atingidas e como conciliaria suas metas econômicas com a manutenção dos benefícios que promete preservar. O segundo turno não deveria ser reduzido a uma disputa sobre quem consegue provocar mais insegurança no eleitorado, mas a um confronto transparente entre propostas, custos e consequências. A campanha de Lula tem o direito de questionar os planos do adversário e apontar riscos que considere relevantes; o que merece crítica é qualquer tentativa de apresentar hipóteses contestáveis como resultados inevitáveis. Da mesma forma, a reação de Flávio precisa ir além da denúncia de uma suposta campanha do medo e oferecer respostas objetivas. Com a votação marcada para 25 de outubro, o eleitor tem diante de si uma disputa em que a clareza das informações será tão importante quanto a intensidade da propaganda. A crítica central à estratégia petista é que o medo, quando substitui a demonstração dos fatos, empobrece o debate público; e uma eleição presidencial exige mais do que cenários alarmantes para que a população decida seu futuro.

Leo Pinheiro