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Nobel da discórdia: Israel explode contra prêmio da Paz e acusa comitê de legitimar o ódio

10/10/2026 • 02:11 • Por Leo Pinheiro

Israel acusando o Comitê Norueguês do Nobel de transformar a premiação em instrumento de hostilidade política contra o Estado israelense

Foto: Reprodução/Instagram e Alan Santos/PR

Governo israelense condena escolha da jurista sul-africana Navi Pillay, que acusou o país de genocídio em Gaza, denuncia politização da premiação e faz referência ao propagandista nazista Joseph Goebbels

O prêmio que deveria simbolizar a paz mundial acabou provocando uma verdadeira tempestade diplomática. O governo de Israel reagiu duramente, nesta sexta-feira, 9, à concessão do Prêmio Nobel da Paz de 2026 à jurista sul-africana Navi Pillay, de 85 anos, acusando o Comitê Norueguês do Nobel de transformar uma das mais prestigiadas honrarias internacionais em instrumento de hostilidade política contra o Estado israelense. Em uma manifestação publicada nas redes sociais, o Ministério das Relações Exteriores de Israel afirmou que a escolha da magistrada não representava um reconhecimento da justiça, mas uma tentativa de legitimar preconceitos e acusações contra o país. A reação foi especialmente contundente porque Pillay presidiu, entre 2021 e 2025, uma comissão independente de investigação das Nações Unidas que acusou Israel de cometer genocídio na Faixa de Gaza, conclusão categoricamente rejeitada pelo governo israelense. Para a diplomacia de Israel, a premiação representa um endosso político a acusações que considera falsas e motivadas por uma campanha internacional de deslegitimação. O episódio ampliou o confronto entre o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e organismos internacionais, em um momento em que as consequências da guerra em Gaza continuam alimentando disputas diplomáticas e jurídicas. A escolha da vencedora transformou a cerimônia de reconhecimento da paz em mais um capítulo da batalha internacional em torno da atuação militar israelense e das denúncias de violações dos direitos humanos.

A indignação israelense ficou evidente no tom incomumente agressivo da declaração oficial. O Ministério das Relações Exteriores afirmou que, caso existisse uma premiação destinada a mentiras, ódio e acusações caluniosas, Navi Pillay estaria entre as principais candidatas, acusando a jurista de participar de uma campanha politicamente motivada para demonizar Israel. A diplomacia israelense também classificou a concessão do Nobel como uma instrumentalização da honraria e afirmou que o Comitê havia reconhecido aquilo que chamou de maior mentira do século XXI, em referência às acusações de genocídio na Faixa de Gaza. A manifestação terminou com uma comparação histórica particularmente controversa: o governo mencionou Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazista, afirmando que ele estaria aplaudindo a decisão. A referência evidenciou a intensidade da reação israelense e a sensibilidade das acusações de genocídio para um país fundado, em parte, como refúgio para sobreviventes do Holocausto. Israel sustenta que suas operações militares em Gaza foram realizadas no contexto da guerra contra o Hamas, iniciada após os ataques de 7 de outubro de 2023, e rejeita a conclusão de que tenha existido intenção de exterminar a população palestina. A comissão presidida por Pillay, por sua vez, fundamentou suas conclusões em investigações sobre mortes de civis, destruição de infraestrutura, restrições humanitárias e declarações de autoridades israelenses. O confronto revela duas interpretações profundamente divergentes: de um lado, Israel denuncia parcialidade política; de outro, alguns investigadores internacionais sustentam que existem evidências de violações graves do direito internacional.

Prêmio sob fogo cruzado

A trajetória de Navi Pillay, entretanto, ultrapassa amplamente sua atuação nas investigações sobre Gaza. Nascida em Durban, na África do Sul, durante o regime de segregação racial do apartheid, a jurista construiu uma carreira internacional dedicada à defesa dos direitos humanos e à responsabilização por crimes contra a humanidade. De origem indiana tâmil, enfrentou obstáculos impostos pela discriminação racial e de gênero e, em 1967, abriu seu próprio escritório de advocacia. Durante sua atuação profissional, defendeu militantes contrários ao apartheid e trabalhou para garantir acesso à assistência jurídica a presos políticos, incluindo Nelson Mandela. Em 1995, tornou-se a primeira mulher não branca a integrar o Tribunal Superior da África do Sul, após indicação de Mandela. Posteriormente, participou do Tribunal Penal Internacional para Ruanda, responsável por julgar crimes cometidos durante o genocídio de 1994, contribuindo para o desenvolvimento de entendimentos jurídicos que reconheceram a violência sexual como possível instrumento de genocídio. Também atuou no Tribunal Penal Internacional e exerceu, entre 2008 e 2014, o cargo de alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Ao anunciar o Nobel da Paz, o Comitê Norueguês destacou justamente essa trajetória de defesa do direito internacional, da justiça e das instituições responsáveis por investigar violações graves. A premiação foi celebrada pelo Escritório de Direitos Humanos da ONU, que ressaltou a importância do trabalho de Pillay e manifestou esperança de que o reconhecimento estimule novas iniciativas em defesa dos direitos fundamentais. Assim, enquanto Israel questiona a legitimidade da escolha, representantes das Nações Unidas e defensores dos direitos humanos enxergam na homenagem um reconhecimento de décadas de atuação jurídica internacional.

A controvérsia também expõe o desgaste das relações entre Israel e instituições multilaterais, especialmente após o aprofundamento das inquirições internacionais sobre a guerra em Gaza. O governo Netanyahu acusa organismos vinculados à ONU de adotarem posições sistematicamente desfavoráveis a Israel, enquanto entidades internacionais e organizações de direitos humanos defendem a necessidade de investigações independentes e responsabilização por eventuais crimes, independentemente do país envolvido. A tensão ultrapassa o Comitê Nobel e alcança tribunais internacionais, incluindo o Tribunal Penal Internacional, que expediu um mandado de prisão contra Netanyahu relacionado à guerra em Gaza. Os Estados Unidos também intensificaram sua oposição ao tribunal, anunciando novas sanções após a divulgação da premiação. Para Israel, a concessão do Nobel a Pillay fortalece uma narrativa internacional que considera injusta e politicamente direcionada. Para o Comitê Norueguês, a escolha representa a defesa de instituições jurídicas capazes de enfrentar crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio. É importante observar que a conclusão da comissão da ONU presidida por Pillay não equivale a uma sentença definitiva de um tribunal internacional sobre a responsabilidade de Israel por genocídio. Ainda assim, o relatório possui relevância no debate jurídico e diplomático sobre o conflito. O resultado é uma disputa que ultrapassa o reconhecimento individual de uma jurista e coloca em confronto a credibilidade das instituições internacionais, a soberania dos Estados e os limites da responsabilização por crimes de guerra. Em vez de produzir consenso, o Nobel da Paz de 2026 tornou-se o centro de uma nova batalha diplomática, mostrando que, em meio às consequências do conflito em Gaza, até mesmo uma premiação dedicada à paz pode aprofundar divisões internacionais.

Leo Pinheiro