Nova denúncia aponta choques elétricos, espancamentos e ameaças contra presos políticos e cidadãos norte-americanos; casal pode enfrentar pelo menos 50 anos de prisão
Do palácio presidencial às celas de uma prisão norte-americana, Nicolás Maduro enfrenta agora acusações que vão muito além do narcotráfico e podem resultar em décadas atrás das grades. O ex-Presidente da Venezuela e sua esposa, Cilia Flores, foram formalmente acusados pela Justiça dos Estados Unidos, nesta quinta-feira, 8, de participar de uma conspiração para torturar opositores políticos, militares, e cidadãos norte-americanos mantidos em prisões venezuelanas. A nova denúncia, apresentada por promotores federais de Nova Iorque, descreve um suposto sistema de repressão que teria funcionado durante anos sob a supervisão direta do casal. Segundo os investigadores, Maduro não apenas tinha conhecimento das violações de direitos humanos, como também teria ordenado pessoalmente sessões de tortura e determinado o agravamento dos castigos impostos a determinados prisioneiros. A acusação inclui nove vítimas específicas, entre elas três cidadãos dos Estados Unidos, e amplia o processo criminal que já envolve suspeitas de narcoterrorismo, tráfico internacional de cocaína e crimes relacionados a armas.
O documento apresentado à Justiça norte-americana descreve episódios de extrema violência, incluindo choques elétricos, espancamentos, asfixia simulada, privação de alimentos, isolamento prolongado e ameaças de morte contra familiares dos detentos. Em um dos casos, um cidadão norte-americano preso em 2022, após ser acusado de participar de uma conspiração para assassinar Maduro, teria recebido descargas elétricas em diferentes partes do corpo e sofrido agressões durante interrogatórios conduzidos por agentes de inteligência militar. Outro episódio envolve um oficial venezuelano suspeito de planejar um golpe de Estado, que teria sido pendurado pelas mãos e pelos pés e submetido repetidamente a choques elétricos. De acordo com os promotores, Maduro teria acompanhado informações sobre os abusos e assistido à gravação de uma confissão obtida mediante violência. Cilia Flores também é apontada como participante da estrutura repressiva, acusada de contribuir para sua organização e de ordenar agressões contra pessoas consideradas adversárias do governo. A Promotoria sustenta que os episódios não representavam excessos isolados de agentes de segurança, mas integravam uma estratégia sistemática para intimidar adversários e preservar o poder político.
Novas acusações e risco de prisão
A situação judicial do casal se agravou após a apresentação da denúncia complementar, que acrescentou a acusação de conspiração para cometer tortura aos crimes anteriormente atribuídos aos dois. Maduro, de 63 anos, e Flores, de 69, foram capturados em Caracas no dia 3 de janeiro de 2026, durante uma operação militar norte-americana determinada pelo Presidente Donald Trump, e transferidos para Nova Iorque. Desde então, permanecem detidos no Centro Metropolitano de Detenção do Brooklyn. A Justiça norte-americana investiga também a suposta participação de integrantes do antigo governo venezuelano em operações de tráfico de drogas envolvendo organizações criminosas internacionais. Caso sejam condenados por todas as acusações, Maduro e Flores estarão sujeitos a penas mínimas obrigatórias que, somadas, chegam a 50 anos de prisão para cada um. O julgamento está previsto para começar em 1º de junho de 2027, sob responsabilidade do juiz federal Alvin Hellerstein. A nova acusação amplia o alcance do processo ao incluir formalmente denúncias de graves violações de direitos humanos, além dos crimes relacionados ao narcotráfico.
A defesa de Maduro rejeitou as novas acusações. O advogado Barry Pollack afirmou que o ex-Presidente nega os crimes atribuídos a ele e pretende contestar as denúncias durante o julgamento. Os representantes de Cilia Flores também negaram as alegações e questionaram o momento escolhido pela Promotoria para divulgar a nova acusação. Na mesma quinta-feira, o juiz Alvin Hellerstein rejeitou o pedido de liberdade apresentado pela ex-primeira-dama, cujos advogados alegaram problemas de saúde e a necessidade de tratamento médico fora da prisão. Para os promotores norte-americanos, entretanto, a libertação representaria risco de fuga e possível intimidação de testemunhas. O procurador federal Jamie McDonald afirmou que Maduro, Flores e outros integrantes do alto escalão venezuelano teriam utilizado a violência e a repressão para manter o controle político do país. Apesar da gravidade das denúncias, as acusações ainda precisam ser comprovadas judicialmente, e os dois réus têm direito à presunção de inocência. O processo coloca sob análise da Justiça norte-americana não apenas as suspeitas de envolvimento do casal com organizações criminosas, mas também sua possível responsabilidade direta por torturas praticadas durante o período em que exerceram o poder na Venezuela.