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O plástico que chega ao oceano começa muito antes da praia, mostra estudo

09/10/2026 • 12:22 • Por Felipe Masid

O International Workshop on Plastic Pollution in the Oceans (IWPPO), que será realizada de 17 a 20 de novembro, em Manaus

Foto: Divulgação

Workshop internacional em Manaus transforma a Amazônia em laboratório para discutir tecnologia, governança e novas estratégias contra uma poluição que atravessa rios, cidades e fronteiras

Quando se fala em poluição plástica nos oceanos, a imagem mais comum é a de garrafas, embalagens e outros resíduos flutuando no mar. Mas talvez o maior erro esteja justamente aí: imaginar que o problema começa no oceano. Boa parte dele começa muito antes, nas cidades, nas cadeias de consumo, nos sistemas de coleta e tratamento de resíduos e, principalmente, nos rios que funcionam como caminhos naturais entre o continente e o ambiente marinho. É essa perspectiva mais ampla que ganha força com a terceira edição do International Workshop on Plastic Pollution in the Oceans (IWPPO), que será realizada de 17 a 20 de novembro, em Manaus, reunindo pesquisadores, poder público, setor produtivo, organizações e comunidades para discutir a poluição plástica a partir da realidade da Pan-Amazônia.

A escolha de Manaus não é apenas uma mudança de endereço para um evento científico. É uma oportunidade de deslocar o olhar: em vez de discutir somente como retirar plástico do oceano, a proposta coloca em evidência como impedir que esse material continue chegando aos ecossistemas aquáticos. Com o tema “Pan-Amazônia, ciência e inovação contra a poluição plástica”, o encontro coloca na mesma mesa políticas ambientais, economia circular, logística reversa, inovação tecnológica e saberes locais. A discussão envolve uma região compartilhada por diferentes países e que conecta ambientes terrestres, rios e sistemas costeiros, tornando evidente que soluções isoladas dificilmente serão suficientes para um problema que também não conhece fronteiras.

Quando o resíduo vira dado, tecnologia e política pública

É nesse ponto que a agenda tecnológica deixa de ser apenas um detalhe acadêmico e passa a ganhar relevância prática. Inteligência artificial, sensores, drones, monitoramento remoto e sistemas de rastreabilidade estarão entre as ferramentas discutidas no workshop. A questão mais interessante, entretanto, não é simplesmente utilizar tecnologia para encontrar plástico. É transformar informação em decisão: saber onde o resíduo está, de onde veio, como se deslocou e quais pontos da cadeia precisam ser modificados para reduzir sua entrada no ambiente. Em outras palavras, a tecnologia pode ajudar a tirar a discussão do campo genérico da “conscientização” e levá-la para o território da gestão baseada em evidências.

Essa mudança de perspectiva também aproxima o debate ambiental de uma agenda econômica. Economia circular, reciclagem, bioplásticos, biorremediação, novas tecnologias de captura e sistemas de rastreabilidade aparecem associados à construção de soluções que envolvam universidades, empresas, governos e sociedade. Para o professor Dr. Jesse Marques da Silva Junior, coordenador do evento, um dos principais objetivos é consolidar uma rede nacional e internacional capaz de transformar a cooperação científica em projetos, tecnologias e ações concretas. O desafio, portanto, não é apenas recolher o que já foi descartado, mas repensar processos produtivos, modelos de consumo e mecanismos de governança. Realizado pela Universidade Santa Cecília em parceria com a Universidade Federal do Amazonas, com apoio de Capes e CNPq, o III IWPPO propõe fortalecer redes capazes de transformar pesquisa científica em projetos, tecnologias e ações concretas — fazendo da Amazônia não apenas um território onde o problema é observado, mas um possível espaço de desenvolvimento de soluções replicáveis para outras regiões do Brasil e do mundo.

Felipe Masid