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Bem-estar & Saúde

Governo não vence nem o mosquito: Quase metade das cidades brasileiras segue em alerta para dengue

08/10/2026 • 20:00 • Por Waleria de Carvalho

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante visita ao Centro de Produção de Vacina contra a Dengue do Instituto Butantan

Foto: Ricardo Stuckert /PR

Levantamento aponta risco de infestação pelo Aedes aegypti em 49,2% das cidades avaliadas, expõe a persistência do risco sanitário e coloca em xeque a eficácia das ações de prevenção do governo federal

O mosquito é minúsculo, mas o problema continua gigantesco... E o governo brasileiro ainda não conseguiu eliminá-lo. Quase metade dos municípios avaliados pelo Ministério da Saúde permanece em situação de alerta ou risco de infestação pelo Aedes aegypti, transmissor da dengue, da chikungunya e da zika. O dado revela uma realidade preocupante: apesar das campanhas publicitárias e sucessivos anúncios de medidas de combate ao inseto, milhares de cidades continuam oferecendo condições favoráveis à sua reprodução. Segundo o segundo ciclo do Levantamento Rápido de Índices para Aedes aegypti (LIRAa), realizado entre maio e agosto de 2026, 49,2% dos 3.732 municípios que enviaram informações apresentaram índices preocupantes de infestação. O resultado acende um sinal de alerta sobre a capacidade das políticas públicas de reduzir os criadouros e evitar novas epidemias. Embora o governo comemore a diminuição dos registros da doença, a permanência do mosquito em proporções tão elevadas mostra que o problema estrutural está longe de ser resolvido. Com a aproximação do verão, período marcado por temperaturas mais altas e chuvas frequentes, cresce a preocupação com a possibilidade de uma nova escalada de infecções.

A redução dos casos de dengue, apresentada pelas autoridades como um avanço, contrasta com a persistência dos indicadores de infestação. Até 26 de setembro de 2026, o Brasil havia registrado aproximadamente 470 mil casos prováveis de dengue, contra 1,5 milhão no mesmo período de 2025, uma queda próxima de 70%. A chikungunya também apresentou redução de 43%, enquanto as notificações de zika diminuíram 35%. Os números representam uma melhora epidemiológica importante, mas não significam que o risco sanitário tenha desaparecido. Pelo contrário: a presença disseminada do mosquito demonstra que continuam existindo condições para novos surtos, especialmente nas regiões onde o controle dos criadouros permanece insuficiente. O próprio levantamento federal identificou que 42,3% dos focos estão em vasos de plantas, garrafas e pequenos recipientes domésticos; 26,1% em reservatórios de água; e 23% em pneus, lixo e resíduos sólidos. A distribuição desses criadouros evidencia dificuldades que ultrapassam as campanhas de conscientização, envolvendo problemas de saneamento, abastecimento de água, coleta de resíduos e fiscalização. Nesse cenário, a questão que se impõe é até que ponto as ações anunciadas pelo poder público estão conseguindo produzir resultados duradouros na redução da infestação.

Alerta que não acaba

A situação ganha contornos ainda mais preocupantes diante das diferenças regionais e da proximidade do período de maior circulação do mosquito. No Norte, pneus e resíduos descartados concentram parte importante dos criadouros; no Nordeste, o armazenamento de água em caixas e reservatórios representa um desafio; enquanto no Sudeste, Sul e Centro-Oeste, pequenos recipientes domésticos aparecem entre os principais focos. O Ministério da Saúde anunciou medidas para enfrentar o problema, incluindo a capacitação de mais de 300 mil agentes comunitários de saúde, a ampliação das visitas domiciliares, e o uso de tecnologias como ovitrampas e o método Wolbachia, que busca reduzir a capacidade de transmissão dos vírus pelo mosquito. Entretanto, a necessidade de reforçar essas iniciativas às vésperas do verão evidencia a dimensão de uma ameaça que se repete ano após ano. O governo também alerta para os possíveis efeitos do El Niño sobre as temperaturas e o regime de chuvas, fatores capazes de favorecer a reprodução do inseto. O desafio, portanto, não é apenas anunciar novas estratégias, mas demonstrar que elas conseguem reduzir de maneira consistente a infestação e proteger a população antes que os hospitais voltem a enfrentar uma pressão maior por atendimentos. A permanência de indicadores elevados exige acompanhamento dos resultados e maior integração entre União, estados e municípios.

Enquanto as autoridades reforçam orientações para eliminar água parada, limpar calhas, tampar caixas-d'água e descartar corretamente pneus e entulhos, o levantamento expõe a distância entre a queda das infecções e a redução efetiva das condições que permitem a proliferação do Aedes aegypti. A responsabilidade pela prevenção envolve a participação dos moradores, mas também depende de políticas permanentes de saneamento, infraestrutura urbana, vigilância epidemiológica e controle ambiental. Não basta transferir às famílias a obrigação de combater o mosquito quando parte dos criadouros está associada a problemas estruturais que exigem investimentos e atuação contínua do poder público. A redução expressiva dos casos em 2026 deve ser reconhecida, mas não pode servir de argumento para minimizar o alerta revelado pelos próprios dados oficiais. Com quase metade das cidades avaliadas apresentando indicadores preocupantes, o país permanece vulnerável a novas ondas de transmissão. O grande teste para o governo federal será transformar a melhora temporária dos números da dengue em uma redução sustentada da infestação, evitando que o Brasil continue repetindo, a cada verão, o mesmo ciclo de alertas, campanhas emergenciais e risco à saúde pública.

Waleria de Carvalho