Notícia Todo Dia NTD
Mundo

Eurodeputado que apoia Flávio Bolsonaro pede deportação de brasileiras apoiadoras de Lula na Polônia

07/10/2026 • 13:43 • Por Leo Pinheiro

Dominik Tarczyński celebrou o resultado de Flávio; depois pediu informações sobre as brasileiras e voltou a pedir votos para o candidato do PL

Foto: Reprodução/Instagram

Parlamentar afirma que símbolo exibido pelas eleitoras configura propaganda comunista, prática vedada pela legislação do país; interpretação é contestada por colega do Parlamento Europeu

Uma fotografia diante da representação diplomática brasileira em Varsóvia foi suficiente para transformar duas eleitoras brasileiras em personagens de uma controvérsia política que atravessou o Atlântico e chegou ao Parlamento Europeu. O eurodeputado polonês Dominik Tarczyński, integrante do partido conservador Lei e Justiça (PiS), publicou nas redes sociais a imagem de duas mulheres que manifestavam apoio ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e passou a pedir informações para identificá-las. Na fotografia, ambas fazem com as mãos o “L” associado à candidatura de Lula, enquanto uma delas aparece usando um pequeno broche com a estrela vermelha e a sigla do PT. Tarczyński destacou justamente o adereço, e acusou as brasileiras de fazerem apologia ao comunismo, argumentando que a promoção dessa ideologia é proibida pela legislação polonesa. Em uma das mensagens, pediu que qualquer pessoa com informações sobre as mulheres entrasse em contato com ele “com urgência”. Posteriormente, tornou explícito o objetivo da mobilização: o parlamentar afirmou que pretende vê-las deportadas da Polônia. A manifestação não ocorreu isoladamente. Um dia antes da publicação contra as eleitoras, Tarczyński havia divulgado uma fotografia em que aparece ao lado de Eduardo Bolsonaro e Flávio Bolsonaro e parabenizado o candidato do PL pelo resultado obtido no primeiro turno da eleição presidencial brasileira.

Na postagem anterior, o eurodeputado celebrou publicamente a vantagem conquistada por Flávio Bolsonaro (PL) nas urnas e escreveu: “Parabéns pela vitória na primeira rodada! O Brasil em breve estará livre dos comunistas”. Pouco depois, a mesma referência ao comunismo apareceu na ofensiva contra as duas brasileiras. Tarczyński publicou no Instagram uma montagem que mostrava as eleitoras e o próprio parlamentar segurando uma mala, em uma referência à saída delas da Polônia. Ele afirmou que pessoalmente ajudaria as mulheres a arrumarem as malas antes de uma eventual deportação e voltou a relacionar a manifestação política delas ao comunismo. Na mesma sequência de publicações, pediu votos para Flávio no segundo turno contra Lula. Apesar da repercussão, não há informação nas reportagens consultadas de que autoridades polonesas tenham determinado a deportação das brasileiras. Até agora, o que existe é a manifestação política de Tarczyński, acompanhada de pedidos públicos para que seguidores forneçam informações capazes de identificá-las.

Estrela vira disputa

A interpretação feita por Tarczyński encontrou contestação dentro do próprio Parlamento Europeu. O também eurodeputado polonês Krzysztof Śmiszek, ligado ao grupo dos Socialistas e Democratas, respondeu publicamente ao colega e questionou a acusação. Segundo ele, a estrela exibida na fotografia é o símbolo do Partido dos Trabalhadores do Brasil, legenda do atual Presidente brasileiro, e não poderia ser automaticamente apresentada como prova de propaganda comunista. A legislação polonesa estabelece restrições a organizações baseadas em métodos totalitários associados, entre outros, ao nazismo, fascismo, e comunismo, mas o broche mostrado na imagem traz a identificação do partido brasileiro. A divergência, portanto, separa dois elementos: as mulheres efetivamente aparecem fazendo uma manifestação de apoio a Lula e uma delas utiliza a estrela do PT; já a classificação desse gesto como “promoção do comunismo” é uma acusação feita por Tarczyński. As duas brasileiras não foram identificadas pelas reportagens, e não há indicação de que tenham sido formalmente acusadas ou condenadas pelas autoridades polonesas por qualquer infração relacionada ao episódio.

A sequência das publicações também evidencia a participação de Tarczyński no debate político brasileiro. Antes de mirar as eleitoras de Lula, o eurodeputado já havia manifestado apoio explícito a Flávio Bolsonaro e aparecido ao lado dele e de Eduardo Bolsonaro. Depois do primeiro turno, celebrou o resultado do candidato do PL e vinculou sua mensagem à ideia de que o Brasil estaria próximo de ficar “livre dos comunistas”. No dia seguinte, utilizou argumento semelhante para justificar a campanha pela identificação das brasileiras e defender sua eventual deportação. Tarczyński também possui um histórico anterior de manifestações relacionadas à política brasileira: em julho de 2025, esteve entre integrantes do Parlamento Europeu que assinaram uma carta dirigida à alta representante da União Europeia para Relações Exteriores e Segurança, Kaja Kallas, defendendo sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e outros magistrados brasileiros. Por enquanto, porém, a deportação permanece uma reivindicação do eurodeputado, e não uma decisão oficial das autoridades da Polônia. O episódio reúne, assim, uma disputa sobre a interpretação de um símbolo partidário brasileiro, a exposição pública de duas eleitoras e a atuação de um parlamentar estrangeiro que, um dia antes, já havia declarado abertamente seu apoio a um dos candidatos que disputam o segundo turno no Brasil.

Leo Pinheiro