Propostas para reformular redes sociais, imagem e discurso do Presidente foram discutidas com jovens políticos, mas ainda não incorporadas à campanha; adversário acelera articulações e reúne aliados para o segundo turno
O relógio do segundo turno já está correndo, mas a nova estratégia de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda permanece no campo das discussões. Depois de perder o primeiro turno para Flávio Bolsonaro (PL), o Presidente reuniu jovens políticos eleitos para ouvir propostas destinadas a mudar a comunicação, ampliar sua presença nas redes sociais, aproximá-lo do cotidiano dos eleitores e reorganizar o discurso para as três semanas decisivas da campanha. As sugestões foram debatidas durante o encontro, mas ainda não foram aprovadas nem oficialmente incorporadas à estratégia eleitoral de Lula. Enquanto o grupo governista avalia quais caminhos seguir, o adversário já colocou em prática uma agenda de articulação política fora de Brasília: Flávio passou a buscar pessoalmente o apoio de lideranças com influência em seus respectivos estados e recebeu adesões de antigos concorrentes do primeiro turno. Ronaldo Caiado (PSD) oficializou apoio em Goiás, Romeu Zema (Novo) anunciou seu voto em Minas Gerais e o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), participa das articulações para ampliar a base partidária do candidato do PL. Assim, os primeiros dias da nova etapa expõem estratégias em ritmos diferentes: de um lado, Lula ainda discute como reformular sua campanha; do outro, Flávio concentra esforços em costurar alianças e ampliar sua rede de apoios.
Entre os que pressionam por uma mudança mais rápida está André Janones (Avante-MG). O deputado transformou o WhatsApp em uma espécie de quartel-general digital e reuniu mais de 1 milhão de pessoas no canal “Exército do Lula”, estrutura criada para distribuir conteúdos, orientar apoiadores e coordenar ações nas plataformas. Janones defende que Lula abandone parte das produções sofisticadas e apareça em situações mais simples: tomando café, caminhando pelas ruas, visitando beneficiários de programas sociais ou conversando diretamente com moradores. Ele resumiu a proposta na expressão “mais calçada e menos helicóptero”. Outras sugestões também chegaram à mesa, como aumentar a participação pessoal do Presidente nas redes e, urgentemente, retirar o chapéu adotado por Lula em diferentes aparições públicas. O Presidente indicou ainda que pretende explorar os riscos que sua campanha associa a uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro. Janones, por sua vez, quer levar seu canal a 2 milhões ou 3 milhões de integrantes e formar uma rede com políticos e influenciadores capaz de multiplicar rapidamente conteúdos favoráveis ao candidato petista. Por enquanto, entretanto, essas propostas integram o conjunto de alternativas discutidas e não representam, necessariamente, decisões já tomadas pelo comando da campanha.
Ideias na mesa, relógio correndo
A cobrança por uma intervenção digital mais organizada também partiu de Fábio Félix (Psol), eleito deputado federal com a maior votação da história do Distrito Federal para o cargo. As declarações de Félix foram feitas antes do encontro de Lula com jovens políticos eleitos, convocado justamente para discutir mudanças na campanha do segundo turno. Antes da reunião, ele defendeu uma “intervenção bem qualificada nas redes sociais”, maior organização da juventude e uma campanha capaz de apresentar propostas concretas para áreas em que a população demonstra insatisfação. Na avaliação do parlamentar, a estratégia não deveria se limitar a ataques contra Flávio Bolsonaro e o ex-Presidente Jair Bolsonaro. Posteriormente, durante a reunião com Lula, esses e outros temas foram colocados em debate: presença mais intensa nas plataformas digitais, linguagem menos institucional, aproximação com os eleitores, participação de jovens lideranças, mudanças na imagem presidencial e maior espaço para propostas. Nada disso, porém, saiu do encontro como decisão definitiva. A reunião funcionou como uma rodada de avaliação e apresentação de alternativas, e caberá ao comando eleitoral definir quais ideias serão efetivamente incorporadas. A distinção é importante: houve debate sobre uma eventual reformulação, mas ainda não uma nova estratégia oficial fechada para a reta final.
Enquanto essas definições permanecem em aberto, Flávio Bolsonaro procura transformar os primeiros dias do segundo turno em uma sequência de articulações políticas. Em Goiânia, recebeu o apoio de Ronaldo Caiado, que havia sido seu adversário e feito críticas duras ao candidato durante o primeiro turno. Caiado prometeu participar da campanha “de corpo inteiro” e mobilizar sua estrutura política em Goiás e também fora do estado. Antes disso, Romeu Zema já havia declarado apoio ao candidato do PL. A federação formada por União Brasil e PP também caminhou para o lado de Flávio, enquanto Republicanos e Podemos passaram a ser alvos das negociações para ampliar a coligação informal em torno de sua candidatura. Tarcísio de Freitas participa das conversas com dirigentes partidários e esteve ao lado de Flávio no encontro realizado em Goiás. O contraste marca a largada da nova etapa da disputa: Lula tem propostas de mudança sobre a mesa, mas ainda precisa decidir quais delas transformar em ação; Flávio, enquanto isso, percorre o tabuleiro político tentando converter antigos adversários e lideranças estaduais em aliados. Com apenas três semanas até a votação decisiva, cada dia gasto discutindo estratégia é também um dia em que o adversário pode avançar na construção de novos apoios.