Michelle Bolsonaro, Gracinha Caiado, Rayssa Furlan e Marina JHC vencem nas urnas e chegarão à Casa em 2027; nenhuma delas havia exercido anteriormente um mandato eletivo
De coadjuvantes nas trajetórias dos maridos a protagonistas de suas próprias campanhas, quatro ex-primeiras-damas atravessaram a fronteira entre os bastidores e as urnas para conquistar algumas das cadeiras mais cobiçadas da política brasileira. Michelle Bolsonaro (PL-DF), Gracinha Caiado (União-GO), Rayssa Furlan (Podemos-AP) e Marina JHC (PSDB-AL) foram eleitas para o Senado e iniciarão seus mandatos em 2027. Elas fazem parte de um grupo de 12 mulheres eleitas para a Casa em 2026, e compartilham uma característica particular: nenhuma havia ocupado anteriormente um cargo eletivo. Apesar disso, todas chegaram à disputa carregando sobrenomes, alianças, e estruturas políticas construídas ao lado de figuras de grande projeção em seus respectivos estados; transformando esse capital em votos suficientes para conquistar mandatos de oito anos.
Entre as quatro, Michelle Bolsonaro protagonizou uma das estreias de maior repercussão. Esposa do ex-Presidente Jair Bolsonaro, ela recebeu 938.496 votos, e tornou-se a senadora mais votada da história do Distrito Federal. Embora nunca tivesse disputado uma eleição, Michelle já atuava diretamente na política partidária e, desde 2023, preside nacionalmente o PL Mulher. Antes de chegar ao Palácio da Alvorada como Primeira-Dama, também havia trabalhado como assessora parlamentar. Em Goiás, Gracinha Caiado, esposa do ex-governador Ronaldo Caiado, alcançou 1.458.522 votos, votação superior à obtida pelo próprio marido quando ele se elegeu senador em 2014. Produtora rural e presidente da federação União Progressista no estado desde junho deste ano, Gracinha acompanhou durante décadas a trajetória política de Caiado, e, agora, passará a ocupar, em nome próprio, um dos espaços de maior influência do Congresso Nacional.
Sobrenomes nas urnas
No Amapá, a vitória de Rayssa Furlan ocorreu em uma eleição que também levou seu marido, Antônio Furlan, conhecido como Dr. Furlan, ao governo estadual. Ex-primeira-dama de Macapá, Rayssa conquistou 264.799 votos, e chegou ao Senado depois de já ter tentado uma vaga na Casa em 2022, quando terminou a disputa na segunda colocação. O resultado mexeu com forças tradicionais da política amapaense, e deixou fora do Senado Randolfe Rodrigues, enquanto o então governador Clécio Luís também foi derrotado por Dr. Furlan na corrida pelo Executivo estadual. Em Alagoas, o fenômeno familiar ganhou contornos ainda mais evidentes: Marina JHC, esposa de João Henrique Caldas, o JHC, recebeu 926.860 votos e conquistou uma cadeira no Senado, enquanto o marido venceu a eleição para governador. A composição da chapa trouxe outro elemento familiar: a primeira suplente de Marina é sua sogra, Eudócia Caldas, mãe de JHC e também integrante da política alagoana.
A chegada das quatro mulheres ao Senado mostra como o capital político acumulado por famílias e grupos regionais continua exercendo peso nas eleições brasileiras, mas também coloca essas novas senadoras diante do desafio de construir identidades próprias depois da vitória. Em Alagoas, a ascensão do grupo de JHC coincidiu com uma derrota de grande simbolismo: Renan Calheiros (MDB) perdeu a tentativa de reeleição, enquanto seu filho, Renan Filho, também foi derrotado por JHC na disputa pelo governo estadual. No Amapá, outra configuração tradicional de poder sofreu abalos com as vitórias do casal Furlan. Já Michelle e Gracinha chegam ao Congresso respaldadas por votações expressivas e por redes políticas consolidadas nacional e regionalmente. A partir de 2027, portanto, elas terão oito anos para mostrar se os sobrenomes que ajudaram a abrir as portas do Senado continuarão sendo sua principal marca ou se conseguirão transformar a herança política dos maridos em trajetórias independentes. Elas deixaram o posto informal de primeiras-damas; agora, pela primeira vez, serão elas próprias as donas do mandato.