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Economia

Urnas viram pregão: Bolsa dispara quase 8%, bate recorde e dólar desaba após primeiro turno

06/10/2026 • 06:12 • Por Leo Pinheiro

O Ibovespa disparou 7,70% e o dólar caiu mais de 4% após Flávio Bolsonaro derrotar Lula no primeiro turno

Imagem: Arte: Lagoa Comunicação

Mercado reage à liderança de Flávio Bolsonaro sobre Lula, Ibovespa fecha acima dos 206 mil pontos e moeda americana recua para perto de R$ 5 em uma sessão marcada pela reprecificação do cenário político e econômico brasileiro

As urnas fecharam no domingo, mas seus efeitos atravessaram rapidamente as portas do mercado financeiro e transformaram a segunda-feira em um pregão de números históricos. O resultado do primeiro turno da eleição presidencial provocou uma das reações mais intensas dos últimos anos entre os ativos brasileiros, levando investidores a refazer projeções e posições diante de um cenário político diferente daquele que vinha sendo considerado nas semanas anteriores. O índice Ibovespa disparou 7,70% e encerrou aos 206.911 pontos, estabelecendo novo recorde histórico de fechamento, depois de alcançar 209.605 pontos na máxima intradiária. No câmbio, o movimento ocorreu na direção oposta: o dólar caiu mais de 4%, terminou praticamente na marca de R$ 5 e, ao longo da sessão, chegou a ser negociado abaixo desse patamar. A mudança brusca de humor veio depois de Flávio Bolsonaro (PL) terminar o primeiro turno à frente do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), resultado que contrariou parte das expectativas incorporadas aos preços dos ativos na reta final da campanha. A surpresa eleitoral desencadeou uma corrida por ações e outros investimentos brasileiros, ampliando o volume de negócios e colocando o país no centro das atenções de gestores locais e estrangeiros.

A resposta dos investidores não ficou restrita à disputa pelo Palácio do Planalto. O desempenho de partidos de direita e centro-direita nas eleições para o Congresso também entrou nos cálculos porque a composição do Legislativo será decisiva para a aprovação de reformas, mudanças tributárias, medidas de contenção de despesas e outras propostas econômicas a partir de 2027. A interpretação inicial de parte do mercado foi de que a nova correlação de forças poderia aumentar as possibilidades de uma agenda voltada ao equilíbrio fiscal e à redução da trajetória da dívida pública, dois temas acompanhados de perto por investidores. Esse reposicionamento apareceu simultaneamente no câmbio, na renda variável e nos juros futuros. O dólar encerrou com queda de aproximadamente 4,1%, cotado a R$ 5,001, enquanto o avanço de 7,70% do Ibovespa representou a maior valorização diária do índice desde março de 2020. A intensidade da movimentação mostrou como expectativas políticas podem alterar rapidamente a percepção de risco sobre o país: em poucas horas, projeções construídas durante semanas foram revistas e bilhões de reais mudaram de posição no mercado.

Bolsa nas alturas

O entusiasmo espalhou-se por diferentes segmentos da B3 e ganhou força principalmente entre companhias mais sensíveis à economia doméstica. Bancos, varejistas, construtoras e empresas dependentes do comportamento dos juros apareceram entre os destaques da sessão, enquanto papéis de grandes instituições financeiras também avançaram de maneira expressiva. As ações da própria B3 chegaram a registrar valorização superior a 20% durante o pregão, refletindo a expectativa de maior movimentação de investidores e entrada de recursos no mercado acionário. A repercussão ultrapassou as fronteiras brasileiras: em Nova Iorque, ativos ligados ao país também registraram fortes ganhos, e o ETF EWZ, que reúne algumas das principais empresas brasileiras negociadas no exterior, avançou mais de 12%. Por trás desse movimento está a expectativa de que uma eventual mudança na orientação econômica a partir do próximo governo possa resultar em maior disciplina nas contas públicas, redução dos prêmios cobrados pelos investidores para financiar a dívida brasileira e, em um horizonte mais longo, condições favoráveis para juros menores. Esse conjunto de fatores beneficiaria empresas endividadas, estimularia investimentos produtivos e poderia aumentar a atratividade da Bolsa brasileira para o capital internacional. O movimento, portanto, não refletiu apenas uma preferência política dos agentes financeiros, mas principalmente uma revisão das projeções para inflação, dívida, juros, crescimento e capacidade de execução de uma futura agenda econômica.

Apesar da explosão de otimismo, o mercado sabe que o resultado do primeiro turno abriu uma nova etapa de incertezas, e não encerrou a disputa. Flávio Bolsonaro e Lula ainda se enfrentarão no segundo turno, marcado para 25 de outubro, e as próximas semanas devem colocar pesquisas eleitorais, alianças partidárias, debates e declarações dos candidatos sob observação permanente das mesas de operação. Especial atenção será dada às propostas para controle de despesas, trajetória da dívida pública, política tributária, empresas estatais e composição das futuras equipes econômicas, porque qualquer sinalização nessas áreas poderá provocar novas oscilações. A vantagem obtida por Flávio no primeiro turno fez investidores atribuírem maior probabilidade a uma alternância no comando do país, mas analistas ponderam que a manutenção dos ganhos dependerá da evolução da campanha e, posteriormente, da apresentação de medidas capazes de transformar expectativas em resultados concretos. Depois de uma sessão em que o Ibovespa rompeu pela primeira vez a barreira dos 200 mil pontos e o dólar chegou a atravessar a linha dos R$ 5, o mercado deixou uma mensagem clara: até a abertura definitiva das urnas do segundo turno, a eleição presidencial brasileira também será disputada diariamente nos gráficos, nas mesas de negociação e nas cotações.

Leo Pinheiro