Juíza rejeita pedido de urgência do Cruz-Maltino após documentos técnicos apresentarem conclusões opostas sobre os riscos ao gramado; clube ainda pode recorrer para tentar levar a semifinal da Sul-Americana ao estádio
A disputa pelo Maracanã saiu das quatro linhas, passou pelos gabinetes e acabou esbarrando no gramado. O Vasco sofreu uma derrota na Justiça em sua tentativa de mandar no estádio o duelo decisivo contra o Boca Juniors, pela semifinal da Copa Sul-Americana. A juíza Adriana Marques dos Santos Laia Franco, da 2ª Vara Cível da Comarca da Capital, negou o pedido de tutela de urgência apresentado pelo clube para obrigar a Fla-Flu Serviços S.A., concessionária responsável pela administração da arena, a liberar o palco para a partida marcada para 20 de outubro. No centro do impasse estão laudos técnicos com conclusões diferentes: enquanto o Cruz-Maltino sustenta que a realização do confronto não provocaria danos irreversíveis ao campo, a administradora afirma que a inclusão de mais uma partida no calendário colocaria em risco a recuperação e a preservação do gramado.
Na decisão, a magistrada considerou que a divergência entre os documentos apresentados pelas duas partes impede, neste momento, uma conclusão segura em caráter liminar. O entendimento é que não caberia ao Judiciário simplesmente escolher um dos pareceres técnicos sem uma análise especializada capaz de avaliar metodologia, critérios, dados e conclusões. A concessionária argumenta ainda que o calendário do Maracanã já está pressionado por outros compromissos e que a realização de Vasco x Boca reduziria o intervalo de recuperação do campo para menos das 72 horas consideradas recomendáveis. O Vasco, por sua vez, contesta essa justificativa e lembra que o estádio já recebeu anteriormente sequências ainda mais apertadas de partidas, além de shows, eventos religiosos e até uma partida da NFL.
Gramado vira juiz do jogo
A controvérsia também chegou à questão da segurança. O Vasco apresentou manifestação da Polícia Militar que apontava o Maracanã como alternativa mais adequada em uma comparação com São Januário, mas a juíza observou que o documento não descartava outros estádios. A concessionária, por outro lado, anexou outra manifestação da corporação indicando a viabilidade de realização da partida no Nilton Santos. O problema para o Cruz-Maltino é que São Januário não alcança a capacidade mínima de 30 mil espectadores exigida pela Conmebol para partidas a partir das semifinais da competição continental. Já o Nilton Santos possui gramado sintético, opção que o Vasco considera esportivamente desfavorável por exigir uma adaptação diferente da equipe justamente em um dos confrontos mais importantes da temporada.
Apesar da derrota judicial, a batalha pelo Maracanã ainda não terminou. A própria decisão ressalta que o indeferimento da liminar não significa que o Vasco não tenha direito a utilizar o estádio, mas apenas que, no atual estágio do processo, faltam elementos técnicos suficientemente seguros para conceder a medida de urgência. O clube ainda pode recorrer ao Tribunal de Justiça e, paralelamente, trabalha para encontrar uma solução para o mando da partida. A diretoria também busca uma autorização excepcional da Conmebol para utilizar São Januário e avalia alternativas caso não consiga reverter o cenário. Assim, antes mesmo de Vasco e Boca Juniors entrarem em campo, uma outra semifinal já está sendo disputada fora dele: de um lado, o desejo cruz-maltino de transformar o Maracanã em seu caldeirão continental; do outro, os argumentos técnicos da concessionária para preservar o gramado. Por enquanto, quem venceu esse primeiro duelo foi o laudo que colocou um freio no plano vascaíno.