Saída do ex-governador da batalha judicial pode anular definitivamente seus votos, elevar Douglas Ruas acima dos 50% e cancelar o segundo turno contra Eduardo Paes
O segundo turno no Rio pode ter durado menos de 24 horas. Anthony Garotinho (Republicanos) desistiu nesta segunda-feira, 5, do recurso que mantinha no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra o indeferimento de sua candidatura ao governo fluminense e abriu caminho para que Douglas Ruas (PL) seja proclamado governador eleito ainda no primeiro turno. A defesa protocolou às 14h03 o pedido de desistência do Recurso Ordinário Eleitoral no processo nº 0602359-26.2026.6.19.0000, encaminhado ao ministro Floriano de Azevedo Marques, relator do caso. A decisão produz uma reviravolta porque a apuração de domingo havia colocado Ruas e Eduardo Paes (PSD) inicialmente no segundo turno: o candidato do PL terminou com 49,27% dos votos válidos, contra 42,76% de Paes, enquanto Garotinho ficou em terceiro, com 3,17%. Como os votos do ex-governador estavam vinculados à situação judicial de sua candidatura, a desistência do recurso pode retirá-los definitivamente do universo dos votos válidos. Nesse cenário, Ruas ultrapassa a barreira de 50% exigida pela Constituição e transforma uma eleição que parecia destinada a mais três semanas de campanha em uma possível vitória imediata.
Na petição, os advogados de Garotinho afirmam que a desistência foi apresentada de forma “livre, expressa, consciente e irretratável” e pedem que o TSE homologue a manifestação, reconheça a perda de objeto do recurso e determine as providências processuais cabíveis. O caso começou no Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ), que indeferiu por unanimidade, em setembro, o registro do ex-governador por ausência de condição de elegibilidade e configuração de causa de inelegibilidade decorrente de condenação por improbidade administrativa. Garotinho recorreu e conseguiu permanecer na disputa enquanto a controvérsia avançava pela Justiça Eleitoral. No domingo, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, determinou que seus votos fossem provisoriamente considerados no cálculo dos percentuais até uma decisão definitiva da Corte. Isso manteve Ruas abaixo dos 50% e fez com que o sistema apontasse inicialmente uma nova disputa entre o candidato do PL e Eduardo Paes. Apenas um dia depois, porém, o próprio Garotinho retirou o recurso que sustentava a batalha jurídica sobre seu registro e alterou novamente o tabuleiro eleitoral do estado.
Segundo turno por um fio
A matemática explica por que uma decisão envolvendo o terceiro colocado pode definir quem ocupará o Palácio Guanabara. Ruas recebeu 4.271.199 votos, Paes somou 3.706.984 e Garotinho obteve 274.411. Enquanto os votos do ex-governador entram provisoriamente no cálculo, o candidato do PL permanece com 49,27%, abaixo da maioria absoluta necessária para liquidar a disputa. Se os 274 mil votos forem definitivamente excluídos, porém, o total de votos válidos diminui e o percentual de Ruas sobe para além dos 50%, eliminando a necessidade de segundo turno. Antes da desistência, o próprio presidente do TRE-RJ, desembargador Claudio de Mello Tavares, havia explicado que caberia ao TSE definir o destino dos votos e que o tribunal fluminense teria de fazer uma nova totalização caso recebesse determinação nesse sentido. A retirada do recurso reduz drasticamente a incerteza jurídica que cercava o resultado, mas Ruas ainda não deve ser tratado formalmente como governador eleito até que a desistência seja homologada e a Justiça Eleitoral conclua os procedimentos necessários para a retotalização e proclamação do resultado.
Se esse rito confirmar a exclusão dos votos de Garotinho, o resultado produzirá uma das maiores reviravoltas da eleição fluminense: Douglas Ruas passará de candidato escalado para disputar um segundo turno contra Eduardo Paes a vencedor da eleição no primeiro turno sem que um único voto novo seja depositado nas urnas. O episódio também encerra uma campanha marcada pela incerteza sobre a situação jurídica de Garotinho, que permaneceu candidato enquanto diferentes decisões judiciais modificavam a forma como seus votos deveriam ser tratados. Para Paes, a mudança é especialmente dura: depois de terminar domingo classificado para uma nova rodada e começar a preparar a estratégia para enfrentar Ruas em 25 de outubro, pode ver a disputa encerrada por uma retotalização determinada pela Justiça Eleitoral. Para Ruas, ocorre exatamente o contrário. Os 49,27% registrados inicialmente podem se transformar em maioria absoluta com a retirada dos votos considerados inválidos. Assim, uma eleição que parecia ter mais três semanas pela frente pode terminar nos tribunais: Garotinho sai da disputa judicial, o segundo turno fica por um fio e Douglas Ruas se aproxima da proclamação como governador eleito do Rio de Janeiro.