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Economia

Produção industrial despenca pelo quarto mês e acende alerta sobre economia brasileira

02/10/2026 • 17:15 • Por Leo Pinheiro

Dezesseis das 25 atividades industriais pesquisadas pelo IBGE recuaram em agosto

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Setor perde 3,1% em quatro meses, 16 de 25 atividades recuam e todos os grandes grupos industriais ficam no vermelho em agosto

A engrenagem da indústria brasileira está perdendo força; e os números de agosto ampliam o sinal de alerta sobre o ritmo da economia. A produção industrial recuou 0,6% na passagem de julho para agosto, segundo a Pesquisa Industrial Mensal divulgada nesta sexta-feira, 2, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Isoladamente, o percentual poderia parecer limitado. O problema está na sequência: a indústria havia encolhido 1% em maio e 1,6% em junho, praticamente estacionado em julho, com alta de apenas 0,1%, e voltou ao terreno negativo em agosto. O saldo desse período é uma perda acumulada de 3,1% em apenas quatro meses, suficiente para consumir grande parte do crescimento de 4,3% obtido no primeiro quadrimestre. O pesquisador André Macedo, do IBGE, aponta uma clara perda de dinamismo no segundo quadrimestre, em meio aos efeitos persistentes de juros ainda elevados sobre consumo, crédito e decisões de investimento. 

O quadro fica mais preocupante quando agosto é comparado com o mesmo mês de 2025: a produção industrial apresentou queda de 1,2%. A média móvel trimestral também recuou, em 0,7%, reforçando a trajetória recente de enfraquecimento. Embora o setor ainda acumule crescimento de 0,8% entre janeiro e agosto e avanço de 0,6% em 12 meses, os indicadores mais recentes revelam uma indústria caminhando na direção contrária à observada no começo do ano. A distância em relação ao auge histórico também permanece expressiva: mesmo estando 1,3% acima do nível de fevereiro de 2020, antes da pandemia, a produção industrial brasileira ainda se encontra 15,6% abaixo do recorde alcançado em maio de 2011. Mais de uma década depois daquele pico, portanto, o setor continua sem recuperar integralmente o terreno perdido — e agora volta a enfrentar uma sequência de resultados negativos.

Freio espalhado pela indústria

O sinal de fraqueza não ficou restrito a poucos segmentos. Dezesseis das 25 atividades industriais pesquisadas pelo IBGE recuaram em agosto, mostrando que a perda de força atingiu grande parte do setor. Produtos do fumo registraram queda de 23,4%; produtos farmoquímicos e farmacêuticos recuaram 5,5%; e as indústrias extrativas diminuíram 0,7%. Houve crescimento em nove atividades, entre elas produtos diversos, alimentos, produtos químicos e metalurgia, mas essas altas não impediram o resultado geral negativo. Outro dado reforça a amplitude da desaceleração: as quatro grandes categorias econômicas pesquisadas terminaram agosto no vermelho. Os bens de consumo semi e não duráveis caíram 1,7%; os bens de consumo duráveis, 1%; os bens de capital, diretamente relacionados à capacidade de investimento da economia, recuaram 0,6%; e os bens intermediários, utilizados como insumos pela própria indústria, diminuíram 0,2%.

Por trás dessa engrenagem mais lenta está um ambiente econômico ainda marcado pelo custo elevado do dinheiro. Segundo o IBGE, os juros permanecem em patamar suficientemente alto para produzir efeitos sobre empresas e famílias, mesmo após as reduções realizadas. Crédito caro, endividamento, inadimplência e maior comprometimento da renda limitam o consumo, enquanto empresas podem postergar investimentos diante das condições financeiras mais restritivas. O mercado de trabalho continua apresentando indicadores positivos, com elevado número de pessoas ocupadas e expansão da massa de rendimentos, mas esse impulso não foi suficiente para impedir a perda recente de velocidade da indústria. O Banco Central também reduziu sua projeção de crescimento do PIB brasileiro em 2026, de 2% para 1,8%, em um contexto de desaceleração da atividade. O retrato deixado por agosto é de atenção: a indústria perdeu 3,1% em quatro meses, voltou a cair na comparação anual e colocou todos os seus grandes grupos econômicos no vermelho, sinais de que a desaceleração deixou de ser apenas um risco no horizonte e já aparece nas linhas de produção.

Leo Pinheiro