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Opinião

Correios em alerta: Do lucro bilionário ao prejuízo e uso da máquina pública na eleição

01/10/2026 • 11:38 • Por Felipe Masid

Em 2021, os Correios registraram lucro líquido de aproximadamente R$ 2,3 bilhões. No ano seguinte, veio o prejuízo. Em 2023, a situação continuou negativa. Em 2024, piorou. Em 2025, o rombo chegou a cerca de R$ 8,5 bilhões. E 2026 não interrompeu a trajetória: somente no primeiro semestre, as perdas já somavam aproximadamente R$ 5,5 bilhões. A pergunta é inevitável: como uma empresa que chegou a produzir bilhões em lucro conseguiu inverter tão rapidamente seus resultados? As mudanças no mercado postal ajudam a explicar o cenário, mas não bastam. Gestão também é adaptar a operação, controlar custos, elevar a produtividade e proteger o caixa.

O problema deixou de ser pontual. Os Correios precisam de empréstimos bilionários, cortes de despesas, venda de ativos e um plano de reestruturação. O Tribunal de Contas da União apontou fragilidades nas premissas econômico-financeiras e no acompanhamento desse plano. A função social da empresa e o custo da universalização postal precisam ser reconhecidos. Mas isso não pode servir de justificativa para resultados cada vez piores. Empréstimo não é lucro. Venda de patrimônio não é eficiência. E plano de recuperação não significa recuperação realizada.

Há ainda uma questão que precisa ser apurada. Vídeos que circulam nas redes sociais, apresentados como denúncia, mostram funcionários dos Correios supostamente orientados a entregar, junto às suas atividades, material de propaganda de candidatos do PT. Se comprovada a utilização de empregados, estrutura ou jornada de trabalho da estatal para favorecer candidaturas, estaremos diante de uma grave irregularidade. A legislação eleitoral veda o uso de empregados da administração indireta em atividades de campanha durante o expediente. E não seria a primeira denúncia desse tipo. Em 2014, o sindicato dos trabalhadores dos Correios de Mato Grosso levou ao TRE acusação de utilização de cadastro de empregados para convocá-los a votar em candidatos do PT. Na ocasião, os Correios negaram qualquer aparelhamento político.

É importante separar situações distintas. Os Correios podem prestar, dentro da legislação, serviços de distribuição de material de campanha regularmente contratado. Em 2022, por exemplo, circulou um vídeo acusando um carteiro de irregularidade ao entregar propaganda do PT. A distribuição, contudo, havia sido contratada legalmente como serviço postal. Outra coisa é obrigar um empregado a usar sua jornada, sua atividade funcional ou a estrutura da empresa para fazer campanha. Essa diferença precisa ser esclarecida e, se houver indícios de irregularidade, investigada pelas autoridades competentes.

Os Correios precisam de gestão. Precisam recuperar receitas, controlar despesas, modernizar operações e voltar a gerar resultados sustentáveis. E precisam permanecer fora da disputa partidária quando seus funcionários estão trabalhando para uma empresa que pertence ao Estado brasileiro. Uma estatal que saiu de bilhões em lucro para bilhões em prejuízo já enfrenta uma crise séria demais para ainda carregar suspeitas de uso eleitoral de sua estrutura. Se os vídeos retratam uma prática real, que se apure e que os responsáveis respondam. Se não retratam, que os Correios expliquem publicamente o que aconteceu. O dinheiro público não pode pagar pela má gestão e muito menos ser usado como instrumento de campanha.

Felipe Masid

Felipe Masid é jornalista e gestor público, formado em Direito, e Administração de Empresas, com especialização em Gestão e Estratégia em Agronegócios pela UFRRJ. Atualmente é mestrando em Controladoria e Gestão Pública.