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Esporte

Lula leva carrinho dos clubes, sai machucado e recua: Batalha das bets fica para depois das eleições

30/09/2026 • 10:09 • Por Leo Pinheiro

Do ataque à retranca: clubes pressionam, e Lula freia ofensiva contra as bets

Foto: Ricardo Stuckert/PR - Montagem: Lagoa Comunicação

Ameaça de paralisação do Brasileirão, boicote à reunião e reação dos gigantes do futebol aumentam pressão sobre o Planalto, que prefere esfriar confronto antes das urnas

Lula entrou em campo atacando, mas a reação dos clubes obrigou o governo a mudar a estratégia no meio da partida. Depois de comprar uma briga com um dos setores mais populares e poderosos do país, enfrentar a revolta de grandes equipes e ver até a ameaça de paralisação do Campeonato Brasileiro aparecer no horizonte, o Planalto resolveu tirar o pé da bola às vésperas das eleições. Integrantes do governo passaram a defender que a negociação sobre os efeitos da proibição das bets no futebol seja retomada somente depois do primeiro turno, marcado para o próximo domingo, 4. A medida não representa uma desistência do Presidente de sua ofensiva contra as casas de apostas, mas funciona como um recuo tático diante de um contra-ataque que ganhou força rapidamente e ameaçava transformar os gramados em mais uma frente de desgaste político na reta final da campanha. O cálculo relatado nos bastidores é simples: se a discussão já provocou reação de dirigentes e colocou até o Brasileirão no centro da disputa, insistir no confronto agora poderia aumentar ainda mais sua repercussão justamente quando milhões de brasileiros estão prestes a ir às urnas.

O incêndio começou depois que Lula assinou uma medida provisória proibindo a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no país. A determinação atingiu em cheio um mercado que, nos últimos anos, despejou cifras bilionárias no futebol brasileiro e passou a ocupar alguns dos espaços mais valiosos das camisas dos grandes clubes. Só as equipes da Série A receberam cerca de R$ 1 bilhão em patrocínios de empresas de apostas legalizadas, segundo dados citados pelas reportagens. Para dirigentes, portanto, não se tratava simplesmente de retirar uma marca do uniforme: contratos, receitas projetadas, folhas salariais e planejamentos financeiros foram construídos considerando esse dinheiro. A resposta veio como um contra-ataque em velocidade. Presidentes de clubes procuraram ministros, entidades recorreram ao Judiciário, equipes de Rio de Janeiro e São Paulo, além do Cruzeiro, sinalizaram que não participariam de uma reunião convocada pelo governo, e, até, surgiu a possibilidade de interromper o Campeonato Brasileiro como forma de pressão. O que começou como uma ofensiva presidencial contra as bets rapidamente se transformou em uma disputa envolvendo Planalto, gigantes do futebol, CBF, patrocinadores, tribunais, e centenas de milhões de reais.

Virada de jogo

A demonstração mais clara de que a partida havia mudado ocorreu quando a reunião entre governo e representantes do futebol acabou adiada. O encontro reuniria clubes, CBF e integrantes dos ministérios do Esporte, Fazenda, Planejamento e Casa Civil para discutir alternativas diante do impacto provocado pela proibição. Mas alguns dos principais times já davam sinais de que deixariam cadeiras vazias, num movimento que reduziria drasticamente a força política da negociação. Oficialmente, o adiamento foi relacionado à proximidade da convocação e às dificuldades de deslocamento dos participantes. Nos bastidores, entretanto, integrantes do governo passaram a defender que o assunto simplesmente esfriasse até depois das eleições. A mudança chama atenção porque Lula vinha adotando um discurso duro contra as casas de apostas: afirmou que acabaria com as bets se dependesse dele e rebateu a pressão financeira lembrando que os clubes conquistavam campeonatos antes de receber dinheiro desse setor. O problema é que o futebol de hoje movimenta uma realidade econômica bastante diferente. Com contratos milionários ameaçados e dirigentes partindo para o enfrentamento, a discussão deixou de ser apenas sobre os males das apostas e passou a envolver o risco concreto de uma crise no principal campeonato do país.

Agora, a disputa entrou numa espécie de intervalo forçado. Lula continua defendendo a proibição e o governo sustenta que as apostas provocaram danos financeiros e sociais que justificam uma resposta contundente do Estado. Do outro lado, clubes argumentam que uma ruptura imediata pode abrir um rombo em seus caixas e exigem pelo menos uma transição capaz de permitir a reorganização dos contratos. A pressão ultrapassou os estádios e chegou ao STF e ao TCU, enquanto alternativas para amenizar as perdas passaram a circular dentro do próprio Executivo. Mas foi a ameaça de levar a guerra para dentro do Brasileirão que tornou o confronto ainda mais explosivo: parar ou tumultuar a principal competição nacional às vésperas de uma eleição significaria colocar milhões de torcedores no meio de uma disputa já carregada de interesses econômicos e políticos. Diante desse cenário, o Planalto prefere administrar o relógio. Depois de entrar em campo disposto a partir para cima das bets, Lula viu os grandes clubes responderem com força e, pelo menos até a passagem pelas urnas, o governo tirou o pé da bola e decidiu deixar a próxima dividida para depois da eleição.

Leo Pinheiro