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Afinidade no corredor da morte: Condenada prestes a ser executada se identifica com mãe acusada de matar os três filhos

29/09/2026 • 15:15 • Por João Vieira

Advogados de Christa Pike tentam impedir na Suprema Corte dos Estados Unidos a execução por injeção letal marcada para esta quarta-feira, 30

Imagem: Fotos: Reprodução/WBIR Channel 10

Christa Pike, que pode se tornar a primeira mulher executada pelo Tennessee em mais de 200 anos, diz sentir conexão com Lindsay Clancy e cita questões de saúde mental enfrentadas por mulheres

A poucas horas de uma execução que pode entrar para a história do Tennessee, Christa Pike surpreendeu ao revelar uma identificação com outra mulher envolvida em um dos casos criminais mais chocantes dos Estados Unidos nos últimos anos. Condenada à morte pelo assassinato de Colleen Slemmer, cometido quando tinha 18 anos, a assassina afirmou sentir uma espécie de “afinidade” com Lindsay Clancy, acusada de matar os três próprios filhos em Massachusetts em 2023. A comparação foi feita em entrevista concedida da prisão, enquanto sua defesa tenta impedir na Suprema Corte dos Estados Unidos a execução por injeção letal marcada para esta quarta-feira, 30. Christa argumentou que as duas enfrentaram problemas que considera especificamente relacionados às mulheres e afirmou que a compreensão sobre saúde mental feminina mudou muito nas três décadas transcorridas desde seu próprio julgamento. O caso de Clancy terminou recentemente com um júri sem consenso, resultando na anulação daquele julgamento; a defesa sustentou que ela sofria de psicose pós-parto, enquanto a acusação argumentou que os assassinatos foram cometidos de forma consciente e deliberada. 

Christa está no corredor da morte há cerca de três décadas pelo assassinato de Colleen Slemmer, então com 19 anos, ocorrido em janeiro de 1995, em Knoxville. Segundo os registros judiciais, a jovem foi atraída para uma área isolada do campus agrícola da Universidade do Tennessee e submetida a uma longa sequência de agressões antes de ser morta. Ela participou do crime ao lado do então namorado, Tadaryl Shipp, e de Shadolla Peterson. O caso ganhou repercussão nacional pela violência: um pentagrama foi entalhado no corpo da vítima e Christa retirou um fragmento do crânio de Colleen e o levou consigo. A acusação sustentou que o crime foi motivado pelo ciúme, porque a ré acreditava que Colleen estava interessada em seu namorado. Agora com 50 anos, ela afirma ter mudado profundamente desde então. Seus advogados alegam que o julgamento não levou adequadamente em consideração sua juventude, o histórico de abusos sofridos na infância e problemas de saúde mental posteriormente diagnosticados. O governador do Tennessee, Bill Lee, porém, recusou o pedido de clemência e informou que não pretende interferir na sentença.

Duas histórias extremas

A mulher com quem Christa Pike afirma sentir afinidade é Lindsay Clancy, cujo caso também provocou intenso debate nos Estados Unidos sobre crime e saúde mental. Em janeiro de 2023, os três filhos de Clancy, Cora, de 5 anos, Dawson, de 3, e Callan, de oito meses, foram encontrados mortos na casa da família em Duxbury, Massachusetts. Depois das mortes, Clancy tentou tirar a própria vida ao saltar de uma janela e ficou paralisada da cintura para baixo. Durante o julgamento, sua defesa sustentou que ela sofria de psicose pós-parto, agravada por excesso de medicamentos e atendimento inadequado de saúde mental. A promotoria apresentou interpretação diferente e afirmou que Clancy sabia o que estava fazendo quando matou as crianças. O júri não chegou a uma decisão unânime, levando à anulação do julgamento. Foi justamente ao comentar esse caso que Christa disse sentir conexão com Clancy e declarou estar satisfeita por ela estar recebendo tratamento. A condenada argumentou ainda que muitas mulheres não conseguem obter a assistência de que necessitam (grupo no qual incluiu a si própria).

A declaração surge no momento mais dramático da longa batalha judicial de Christa Pike. Caso a execução ocorra, ela será a primeira mulher executada pelo Tennessee em mais de dois séculos e a única pessoa no estado, na era moderna da pena de morte, executada por um crime cometido aos 18, 19 ou 20 anos. Sua defesa tenta uma intervenção de última hora da Suprema Corte dos Estados Unidos, enquanto o estado sustenta que a condenação passou por décadas de recursos e deve ser cumprida. O caso também voltou a colocar em discussão a diferença entre as penas recebidas pelos envolvidos no assassinato de Colleen: Christa recebeu a sentença de morte, enquanto os outros participantes foram submetidos a punições diferentes. Entre pedidos de clemência, argumentos sobre traumas do passado e uma execução cada vez mais próxima, a inesperada identificação de Christa com uma mãe acusada de matar os próprios filhos acrescenta mais um capítulo controverso a uma história criminal que atravessa mais de três décadas e agora se aproxima de seu desfecho.

João Vieira