Rede reúne pesquisadores de diferentes instituições para estudar adaptação climática, produtividade, qualidade dos frutos e aproveitamento sustentável da palmeira nativa
Uma palmeira brasileira está encurtando a distância de mais de mil quilômetros entre o Vale do Café e o Centro-Oeste — pelo menos dentro dos laboratórios e campos de pesquisa. A macaúba, espécie nativa que desperta interesse pelo potencial de seus frutos, óleos e coprodutos, virou o ponto de encontro de pesquisadores do Rio de Janeiro e de Goiás em uma nova frente de estudos. A articulação ganhou força após a participação da Universidade de Vassouras no Inova Agro, promovido pela Associação dos Engenheiros Agrônomos de Goiás (AEAGO), e pretende investigar desde a adaptação da planta a diferentes condições de clima e solo até novas possibilidades de aproveitamento capazes de impulsionar a diversificação agrícola e agregar valor à produção.
Em Goiás, pesquisadores da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e da Universidade Federal de Goiás (UFG) desenvolvem estudos relacionados à germinação da macaúba. Em Porangatu, uma oficina dedicada ao tema reuniu instituições de ensino e pesquisa, com apoio da Estação Experimental da EMATER-GO. A Universidade de Vassouras participa desse movimento agregando sua experiência na análise e no processamento de oleaginosas. No Vale do Café, os estudos contam com o apoio de fazendas da região e estão relacionados ao BioVale, projeto coordenado pela Dra. Cristiane Siqueira, com fomento da FAPERJ no âmbito do CapacitaAgro, da Pesagro-RJ. A iniciativa investiga o aproveitamento de frutos e resíduos, rotas de economia circular e compostos com potencial bioativo, aproximando a pesquisa das demandas dos produtores.
Materiais adaptados a diferentes condições
A nova etapa do projeto prevê o acompanhamento de plantas adultas em campo e a comparação de mudas de diferentes procedências. Os pesquisadores deverão relacionar informações de clima, solo e produtividade às características dos frutos, além de avaliar métodos de extração e o potencial de aproveitamento dos óleos, compostos e coprodutos da macaúba. Para a coordenadora da proposta, Dra. Cristiane Siqueira, a integração entre os grupos de pesquisa do Vale do Café e do Centro-Oeste amplia a capacidade de compreender o comportamento da espécie em diferentes condições ambientais e produtivas. “A ligação entre as regiões permite reunir conhecimento produzido no Vale do Café e observações de campo no Centro-Oeste em torno de uma pergunta comum: quais materiais de macaúba conseguem conciliar adaptação climática, produção e qualidade dos frutos? Essa é uma questão central para avançarmos na compreensão do potencial da espécie, especialmente diante das mudanças climáticas e da necessidade de identificar materiais que possam resistir ao calor e à escassez de água sem perder características importantes de produtividade e qualidade. Para isso, precisamos relacionar as condições do ambiente ao desempenho das plantas e à composição dos frutos, utilizando métodos compartilhados e amostras rastreáveis.”
Ao longo de 36 meses, o projeto deverá combinar o acompanhamento de plantas em campo, especialmente no norte de Goiás, com ensaios controlados em fazendas de Vassouras. A análise integrada de dados ambientais, agronômicos e químicos poderá contribuir para selecionar materiais de maior interesse produtivo, orientar a diversificação agrícola e ampliar o aproveitamento sustentável dos frutos e coprodutos por meio da economia circular. A investigação de compostos com potencial bioativo também poderá abrir novas frentes para estudos de ingredientes funcionais, cosméticos e outros produtos. Essa etapa, entretanto, é exploratória e dependerá de validações específicas antes de qualquer aplicação. A proposta ainda prevê o intercâmbio de métodos e a formação de pesquisadores, fortalecendo a colaboração entre as avaliações agronômicas realizadas em Goiás e a capacidade de análise e processamento da Universidade de Vassouras.