Moradores ultrapassam barreiras de segurança da hidrelétrica de Sinop e se expõem a sucção, vórtices e correntes que podem transformar a pescaria em tragédia
O peixe pode até estar logo ali, mas uma tentativa de fisgá-lo pode terminar com o pescador sendo literalmente engolido pela força da água. Moradores de Sinop, em Mato Grosso, estão ultrapassando áreas de segurança da Usina Hidrelétrica de Sinop para pescar e chegando perigosamente perto das estruturas e turbinas do empreendimento. Imagens das câmeras de monitoramento mostram pessoas em embarcações além dos limites estabelecidos pela hidrelétrica, mesmo diante de boias e placas que indicam as regiões onde a circulação é proibida. O alerta da administração é direto: naquele ponto, uma mudança repentina na operação das máquinas pode alterar em segundos o comportamento da água e deixar quem estiver nas proximidades sem possibilidade de reação.
O risco não se resume a uma correnteza mais forte. Segundo o diretor-presidente da hidrelétrica, Ramon Carvalho, as máquinas da usina estão conectadas ao Sistema Interligado Nacional e respondem imediatamente às variações do sistema. Isso significa que uma área aparentemente tranquila pode mudar de comportamento de maneira rápida e abrupta. Entre os perigos estão alterações repentinas do fluxo, formação de vórtices, correntes de retorno e, em determinadas regiões, sucção mecânica, situação em que, segundo o alerta divulgado pela usina, uma tentativa de sobrevivência ou resgate pode se tornar inviável independentemente do preparo físico da vítima ou dos equipamentos utilizados. Ainda assim, pescadores continuam ultrapassando as barreiras em busca de locais considerados mais favoráveis para encontrar peixes.
Isca para o perigo
As invasões se tornam mais frequentes justamente nos horários em que a fiscalização visual pode ser dificultada. De acordo com a direção da usina, há registros principalmente no começo da manhã, no final da tarde e até durante a madrugada, períodos escolhidos porque alguns pescadores acreditam ter maiores chances de capturar peixes. Com a chegada do período de calor, a administração também percebeu aumento no número de pessoas entrando nas áreas restritas. O problema persiste apesar de o perímetro de segurança contar com boias de demarcação, placas informativas e monitoramento constante. As câmeras instaladas no empreendimento já flagraram pescadores inclusive utilizando barcos nas proximidades das estruturas, avançando para além das barreiras criadas justamente para mantê-los longe das regiões consideradas mais perigosas.
A Sinop Energia, responsável pela administração da hidrelétrica, reforçou que ultrapassar as barreiras não representa apenas uma imprudência: a conduta pode infringir normas de segurança da navegação e regulamentações do setor elétrico, ficando sujeita a sanções e à intervenção de autoridades como a Marinha do Brasil e a Polícia Militar Ambiental. A empresa faz um alerta especialmente contundente sobre a pesca subaquática perto das estruturas da usina, atividade que classifica como potencialmente fatal. A recomendação é permanecer sempre fora dos limites demarcados e comunicar às autoridades eventuais invasões. Em uma pescaria na qual a correnteza pode mudar em questão de segundos e a força das turbinas não oferece segunda chance, atravessar uma simples linha de boias pode significar trocar a busca pelo peixe por uma arriscada disputa pela própria vida.