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Economia

Bule cheio: Brasil põe mais 11 milhões de sacas na mesa e caminha para safra recorde

26/09/2026 • 08:06 • Por Leo Pinheiro

Com 99% da área já colhida, o Brasil deve encerrar 2026 com uma produção de 67,6 milhões de sacas de 60 quilos de café beneficiado

Foto: Diego Catto/Unsplash

Produção deve alcançar 67,6 milhões de sacas em 2026, alta de 19,6%; bienalidade positiva, produtividade maior e expansão da área impulsionam resultado histórico 

O cafezinho brasileiro nunca esteve tão cheio de si. Com 99% da área já colhida, o Brasil deve encerrar 2026 com uma produção de 67,6 milhões de sacas de 60 quilos de café beneficiado, o maior volume da série histórica da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), iniciada em 2001. A estimativa representa um crescimento de 19,6% em relação à safra de 2025, quando foram produzidas cerca de 56,5 milhões de sacas. Na prática, são aproximadamente 11 milhões de sacas adicionais em apenas um ano. O salto é resultado de uma combinação favorável: 2026 é um ano de bienalidade positiva, fenômeno característico principalmente do café arábica, no qual as plantas alternam ciclos de maior e menor produtividade. A esse movimento natural somaram-se condições climáticas mais favoráveis em importantes regiões produtoras, ampliação da área em produção, e maior utilização de tecnologia no manejo das lavouras. O resultado coloca a cafeicultura nacional diante de uma colheita sem precedentes e reforça o peso do Brasil no mercado mundial da bebida.

A área efetivamente destinada à produção deve alcançar 1,95 milhão de hectares, crescimento de 5,1%, mas é o rendimento das lavouras que ajuda a explicar boa parte da expansão. A produtividade média nacional passou de 30,4 sacas por hectare em 2025 para 34,6 sacas por hectare em 2026, avanço de 13,8%. O grande motor dessa colheita é o arábica, responsável por aproximadamente 70% do café produzido no país. A Conab estima 48,2 milhões de sacas da variedade, nada menos que 34,8% acima do resultado registrado no ano passado. Minas Gerais permanece no centro dessa produção e deve colher 34,96 milhões de sacas de arábica, das quais 15,93 milhões sairão das regiões Sul e Centro-Oeste do estado. A melhor distribuição das chuvas antes da floração e condições favoráveis até março ajudaram na formação dos grãos. São Paulo também se beneficiou do clima e deverá alcançar 6,19 milhões de sacas de arábica, favorecido por chuvas regulares depois de períodos secos e temperaturas sem calor excessivo.

Arábica sobe, conilon desce

Nem todas as xícaras, porém, estão igualmente cheias. Enquanto o arábica dispara, o conilon deve terminar 2026 com 19,4 milhões de sacas, queda de 6,6% em relação ao ano anterior. A redução ocorre apesar de a área em produção dessa variedade ter crescido 4%, para 386,6 mil hectares, e está relacionada principalmente à menor produtividade registrada no Espírito Santo. Maior produtor nacional de conilon, o estado deve apresentar recuo de 5,4% em sua produção total de café. No caso específico do conilon capixaba, a retração estimada chega a 14,3%, para 12,1 milhões de sacas, consequência de baixas temperaturas que provocaram uma florada irregular. O cenário é diferente em Rondônia, onde a colheita de conilon está praticamente encerrada e deve chegar a 2,88 milhões de sacas, 24% acima de 2025. A Bahia também apresenta crescimento, embora mais discreto: a produção total deve avançar 1,2%, alcançando aproximadamente 1,19 milhão de sacas de arábica, e 3,3 milhões de conilon. O desempenho mostra que o recorde nacional esconde realidades bastante distintas entre espécies e regiões produtoras.

A safra histórica chega também em um momento de movimentação intensa no mercado internacional. Somente em agosto, o Brasil exportou 3,8 milhões de sacas, crescimento de 25,8% sobre julho e de 43,2% na comparação com agosto de 2025, alcançando o maior resultado para o mês na série histórica citada pelo levantamento. No acumulado de janeiro a agosto, entretanto, os embarques somaram 24,6 milhões de sacas, e ficaram 6,6% abaixo do mesmo período do ano passado. No cenário global, a produção da temporada 2026/27 é projetada em 189,7 milhões de sacas, avanço de 6,1%, enquanto o consumo deve atingir 179,7 milhões, alta de 3,6%. A entrada da grande safra brasileira, combinada à proximidade da colheita vietnamita e ao aumento sazonal da oferta colombiana, pressiona as cotações internacionais para baixo, embora estoques reduzidos, demanda crescente, e preocupações relacionadas ao El Niño limitem a expectativa de quedas mais acentuadas. Assim, se 2026 começou cercado pelas tradicionais incertezas do campo, termina com uma marca expressiva: o maior produtor mundial de café prepara a maior colheita de sua história.

Leo Pinheiro