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Entre tapinhas e "beijos" : Trump transforma visita de Xi em show à parte na Casa Branca

25/09/2026 • 17:02 • Por Leo Pinheiro

A cordialidade pública marcou uma visita realizada em meio a divergências importantes envolvendo comércio, inteligência artificial, tecnologia e Taiwan

Foto: Reprodução Instagram

Presidente norte-americano distribui elogios, brinca diante de fotografias e cerca líder chinês de pompa, enquanto diferenças entre as duas potências permanecem no pano de fundo

A diplomacia entre Estados Unidos e China ganhou uma inesperada dose de comédia durante a passagem de Xi Jinping por Washington. Em uma visita de Estado cercada por tapete vermelho, honras militares, jantar de gala e conversas sobre alguns dos assuntos mais delicados do planeta, Donald Trump encontrou espaço para fazer aquilo que costuma fazer diante das câmeras: improvisar. O Presidente norte-americano distribuiu elogios ao líder chinês, deu tapinhas em suas costas e fez brincadeiras que arrancaram risadas dos presentes, enquanto Xi manteve a postura mais reservada que tradicionalmente adota em compromissos oficiais. A sequência de cenas descontraídas chamou atenção justamente pelo contraste com o peso político do encontro. Trump chegou a afirmar que mantém uma “amizade verdadeiramente grandiosa” com Xi e, durante o jantar de Estado, declarou que a relação entre os dois nunca esteve tão boa. A cordialidade pública marcou uma visita realizada em meio a divergências importantes envolvendo comércio, inteligência artificial, tecnologia, Taiwan e a competição estratégica entre Washington e Pequim.

Um dos momentos mais curiosos aconteceu durante um passeio pela Casa Branca. Ao mostrar a Xi um corredor com imagens de antigos Presidentes norte-americanos, Trump parou diante do espaço dedicado a Joe Biden, onde colocou uma representação de uma caneta automática (recurso que o republicano utiliza como provocação política ao antecessor). Em outro ponto do percurso, os dois se depararam com uma fotografia em que apareciam juntos. Trump então apontou para a própria imagem e brincou, perguntando quem era aquele homem e dizendo não reconhecê-lo. O estilo informal também apareceu desde a chegada do visitante: Trump havia publicado nas redes sociais que Xi estava “em ótima forma” e, durante os compromissos oficiais, voltou a elogiá-lo repetidamente. A recepção contrasta com declarações feitas pelo próprio Trump anos atrás, quando ainda não ocupava a Casa Branca e criticou a pompa dedicada ao dirigente chinês durante o governo Barack Obama. Na época, o atual mandatário disse que, em vez de um jantar de Estado, ofereceria um hambúrguer do McDonald’s a Xi e iria diretamente discutir negócios.

Diplomacia à moda Trump

Desta vez, porém, nada de hambúrguer. Xi recebeu uma recepção cuidadosamente planejada, com cerimônias oficiais e um jantar de Estado para mais de uma centena de convidados. O cardápio combinou ingredientes norte-americanos com referências à culinária chinesa, enquanto empresários e integrantes dos dois governos ocuparam as mesas da Casa Branca. Trump também presenteou o visitante com uma escultura de uma águia-careca, símbolo nacional dos Estados Unidos, e aproveitou seu discurso para sair do roteiro e falar sobre o novo salão de festas que está sendo construído no complexo presidencial. Xi retribuiu a cordialidade em tom mais protocolar: agradeceu pela hospitalidade, afirmou que ele e a esposa, Peng Liyuan, haviam se sentido “em casa” e recordou momentos históricos da aproximação entre os dois países. O líder chinês também anunciou o envio de dois pandas para um zoológico em Atlanta, retomando a tradicional “diplomacia do panda”, utilizada por Pequim como gesto de aproximação com outros países.

Por trás dos sorrisos, presentes e piadas, entretanto, estavam duas potências que continuam enfrentando divergências relevantes. As conversas ocorrem em um cenário de disputas comerciais e tecnológicas, preocupações americanas com Taiwan e competição pelo desenvolvimento da inteligência artificial. Xi afirmou que manteve uma troca “sincera e profunda” com Trump e disse que houve entendimentos em diferentes assuntos, defendendo a abertura de um novo capítulo na relação bilateral. Os gestos públicos de cordialidade foram mais visíveis do que anúncios de grandes acordos concretos durante a visita. Ainda assim, o encontro ofereceu uma fotografia incomum da relação entre Washington e Pequim: de um lado, Xi mantendo a sobriedade característica das aparições oficiais; do outro, Trump transformando corredores, fotografias, presentes e discursos em oportunidades para improvisar. Entre a diplomacia de alto nível e as “piadas de tiozão”, a visita mostrou que, pelo menos diante das câmeras, os dois líderes escolheram trocar farpas por tapinhas nas costas.

Leo Pinheiro