Presidente muda discurso sobre apostas esportivas, ignora apelo dos clubes e afirma que futebol terá de encontrar outras fontes de receita
O apito final para as bets pode estar mais próximo, pelo menos no discurso de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em ato de campanha realizado na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, o Presidente e candidato à reeleição afirmou que pretende acabar com as plataformas de apostas esportivas no país e declarou que a decisão já está tomada. Lula relacionou o crescimento das apostas aos efeitos dos algoritmos sobre os jovens e aos prejuízos financeiros e sociais enfrentados por famílias de menor renda. Em uma das declarações mais duras desde que colocou o tema no centro de sua campanha, disse que terá “o imenso prazer de acabar com as bets”. Apesar da afirmação, o formato jurídico da medida ainda não foi definido pelo governo: integrantes do Planalto discutem desde restrições mais severas até a possibilidade de proibição das apostas de quota fixa ou de determinados jogos de cassino online.
A fala também elevou a temperatura do confronto com os clubes de futebol, hoje fortemente dependentes dos contratos de publicidade firmados com casas de apostas. Lula contestou o argumento apresentado por equipes da Série A de que uma eventual retirada das empresas do mercado poderia provocar uma crise no esporte. Para defender sua posição, lembrou períodos de sucesso do futebol brasileiro anteriores à chegada das bets, citando o Santos de Pelé e os cinco títulos mundiais conquistados pela Seleção em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. O Presidente afirmou ainda que os clubes precisarão aprender a buscar outras formas de financiamento. O setor, por outro lado, sustenta que o mercado legalizado se tornou uma importante fonte de receitas e teme os impactos econômicos de uma mudança brusca nas regras. Clubes das Séries A e B já negociam alternativas com o governo diante da possibilidade de perderem recursos provenientes desses patrocínios.
Aposta no fim das apostas
A ofensiva ocorre cerca de dois anos depois de o próprio governo Lula ter concluído a regulamentação do mercado de apostas de quota fixa, autorizadas no Brasil desde 2018. O modelo regulado entrou efetivamente em funcionamento em 2025, com empresas autorizadas pelo Ministério da Fazenda e cobrança de outorgas para atuação legal. Agora, o governo discute uma Medida Provisória para restringir o setor, mas ainda há divergências sobre seu alcance. Nesta quinta-feira, 24, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o texto permanece em avaliação e deverá passar por uma decisão mais específica do Presidente nos próximos dias. O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, também ressaltou que ainda não existe base legal para calcular o impacto fiscal de uma eventual proibição, já que a equipe econômica só pode incorporar aos seus relatórios medidas efetivamente aprovadas ou assinadas.
A mudança de tom acontece em plena reta final da campanha presidencial, período em que Lula passou a colocar o combate às apostas online entre os temas de maior destaque de sua agenda. Antes de afirmar que a decisão estava tomada, o Presidente já havia defendido medidas “mais drásticas” contra o setor, e argumentado que as apostas contribuem para o endividamento e para problemas sociais. A discussão, entretanto, envolve interesses que vão além das casas de apostas: clubes de futebol calculam perdas relevantes com patrocínios, enquanto a União também precisará considerar a arrecadação gerada pelo mercado regulamentado. Por isso, há uma diferença importante entre a declaração política e o que efetivamente entrará em vigor. Lula afirma ter decidido pelo fim das bets, mas o instrumento legal e a extensão da proibição ainda estão sendo definidos pelo governo, que promete avançar com as primeiras medidas antes do primeiro turno das eleições.