Construção irregular já estava vazia, interditada e em processo de demolição; queda assustou moradores entre Copacabana e Ipanema, mas não deixou vítimas
Por alguns segundos, parecia que o pior estava prestes a acontecer no alto da Zona Sul do Rio. Um prédio desabou no fim da noite desta quarta-feira, 23, no Morro do Pavãozinho, provocando correria, uma enorme nuvem de poeira e apreensão entre moradores da região. O imóvel ficava na Rua Saint Roman, em um dos acessos à comunidade Pavão-Pavãozinho, entre Copacabana e Ipanema. Apesar da dimensão da queda, ninguém ficou ferido. A ausência de vítimas tem uma explicação decisiva: prevenção. A construção já estava desocupada e havia sido interditada pela Defesa Civil desde 3 de setembro, depois de denúncias feitas por moradores e da identificação de risco iminente de desabamento. A prefeitura afirma que o edifício era uma construção irregular e já passava por processo de demolição quando a estrutura finalmente veio abaixo. Imagens feitas na comunidade registraram o momento em que o imóvel perde sustentação e desaparece em meio aos escombros, enquanto pessoas próximas correm para deixar a área.
O susto não terminou quando a poeira baixou. Durante a madrugada desta quinta-feira, 24, equipes da Defesa Civil, do Corpo de Bombeiros, da Subprefeitura da Zona Sul e de outros órgãos municipais permaneceram na região para avaliar o impacto da queda sobre as construções vizinhas. Em uma nova vistoria, sete imóveis próximos aos escombros foram interditados preventivamente até que o entulho seja retirado pela Secretaria Municipal de Conservação. Os bombeiros realizaram varreduras no local, inclusive com equipes especializadas de busca e resgate com cães, sem localizar vítimas. Moradores chegaram a ser retirados preventivamente de edificações próximas durante a operação. A Light também foi acionada para remover ligações clandestinas existentes no prédio que caiu. A principal preocupação das autoridades passou a ser verificar se o colapso poderia ter comprometido outras estruturas de uma área densamente ocupada, onde uma construção praticamente encosta na outra.
Tragédia evitada
O desabamento ocorre em um momento especialmente delicado para o Rio. Setembro já é o mês de setembro mais chuvoso registrado na cidade nos últimos 29 anos, com mais de 171 milímetros acumulados antes mesmo de seu encerramento. O prefeito Eduardo Cavaliere relacionou o episódio ao cenário de chuvas intensas e aproveitou o caso para alertar sobre o risco representado por construções irregulares que recebem sucessivos pavimentos sem controle técnico. Há, porém, uma distinção importante: até o momento, não foi apresentada uma conclusão técnica estabelecendo que a chuva tenha provocado diretamente a queda do prédio do Cantagalo. O que já era conhecido antes do desabamento é que a edificação apresentava problemas suficientes para levar a Defesa Civil a determinar sua interdição e iniciar, por meio da prefeitura, os procedimentos para sua retirada. Ou seja, o risco não apareceu na noite em que o prédio caiu; ele já havia sido identificado semanas antes.
É justamente esse detalhe que transforma uma cena impressionante em um episódio que poderia ter terminado de maneira muito mais grave. A denúncia dos próprios moradores levou à vistoria, a vistoria resultou na interdição e a retirada antecipada das pessoas evitou que o colapso de uma construção inteira terminasse em mortes. Agora, a atenção se desloca para os sete imóveis interditados preventivamente e para a remoção dos escombros, etapa necessária antes de uma avaliação definitiva da segurança das construções mais próximas. As imagens do dia seguinte revelam o tamanho da destruição deixada em uma área cercada por outras casas e ajudam a dimensionar o risco enfrentado pela comunidade. Em uma cidade que atravessa um período excepcionalmente chuvoso e convive com milhares de construções erguidas em áreas densamente ocupadas, o episódio deixa um alerta bastante concreto: no Cantagalo, o prédio caiu; desta vez, a tragédia foi evitada antes que ele chegasse ao chão.a