Ministério da Fazenda corta estimativa de avanço da economia de 2,3% para 2% em 2026 e também diminui projeção para 2027; serviços e indústria puxam revisão para baixo
A economia brasileira tirou o pé do acelerador, e a própria equipe econômica do governo agora reconhece que o país deverá chegar ao fim de 2026 crescendo menos do que esperava há poucos meses. A Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda reduziu de 2,3% para 2% sua projeção para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano. O corte de 0,3 ponto percentual aparece no Boletim Macrofiscal de setembro e reflete principalmente uma avaliação mais cautelosa sobre o comportamento dos serviços e da indústria, dois setores importantes para o desempenho da atividade. A agropecuária seguiu na direção contrária e teve sua perspectiva elevada, ajudando a compensar parcialmente a perda de dinamismo observada nas demais áreas. A revisão ocorre depois de o PIB avançar 0,5% no segundo trimestre ante os três primeiros meses do ano e 2% na comparação com igual período de 2025. No acumulado de quatro trimestres, a economia cresceu 1,9%, abaixo dos 2,3% registrados no encerramento do ano passado.
Nos serviços, a Fazenda atribui a redução da expectativa ao ritmo mais moderado registrado no primeiro semestre e aos efeitos graduais da política monetária sobre a demanda doméstica. O crédito mais caro ainda pesa sobre as decisões das famílias e das empresas, enquanto o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas atingiu, segundo a SPE, o maior patamar da série histórica no segundo trimestre. Isso significa que, mesmo com o crescimento da massa de rendimentos, uma parcela maior dos recursos familiares fica destinada ao serviço das dívidas, limitando sua transformação em consumo. Na indústria, a principal preocupação está na transformação, segmento diretamente afetado pelo custo do financiamento e pelo comportamento da procura por bens de consumo. A indústria extrativa, por outro lado, continua oferecendo sustentação à atividade. O mercado de trabalho também permanece como um elemento de apoio ao consumo, enquanto a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física deve aumentar a renda disponível e, na avaliação oficial, ajudar a amortecer parte da desaceleração esperada para a segunda metade do ano.
Menos gás
A revisão não ficou restrita a 2026. A equipe econômica também diminuiu de 2,5% para 2,3% a previsão de crescimento do PIB em 2027, embora espere que a redução da taxa básica de juros iniciada em março comece a produzir efeitos mais perceptíveis sobre a atividade. A avaliação é de que condições financeiras gradualmente menos restritivas poderão favorecer setores mais dependentes do crédito, como indústria de transformação, construção e determinados segmentos de serviços. Para o último trimestre de 2026, a SPE prevê uma aceleração do PIB, com expansão de 2,1% na comparação com o mesmo período do ano anterior, justamente à medida que os efeitos da flexibilização monetária começam a alcançar a economia real. Para 2027, a Fazenda também aposta na continuidade do crescimento da indústria extrativa e das exportações, na melhora das condições de financiamento e na expansão da massa real de rendimentos para sustentar consumo e investimentos. Ainda assim, a redução simultânea das projeções para os dois anos mostra que o cenário oficial passou a incorporar uma trajetória de crescimento mais moderada do que aquela considerada anteriormente.
A equipe econômica também refez suas contas para a inflação, mas com movimentos diferentes entre os dois anos. Para 2026, a estimativa do IPCA caiu de 5,1% para 4,9%, influenciada por resultados mais favoráveis do que o esperado principalmente em alimentação no domicílio, pela manutenção dos juros em nível restritivo durante boa parte do ano e pela própria desaceleração prevista para a atividade econômica. Para 2027, porém, a projeção subiu de 3,6% para 3,8%, com a Fazenda apontando riscos relacionados a um El Niño mais intenso, seus possíveis efeitos sobre a produção de grãos e carnes, além de pressões envolvendo fertilizantes e o ciclo pecuário. O novo quadro desenhado pelo governo combina, portanto, menos crescimento em 2026 e 2027 com uma inflação menor no curto prazo, mas ligeiramente maior no horizonte seguinte. A revisão deixa claro que, embora o Ministério da Fazenda espere alguma recuperação com a queda dos juros, a economia brasileira entra na reta final de 2026 com menos impulso do que o próprio governo projetava anteriormente.