Conversas encontradas pela PF no celular do ex-dono do Banco Master mostram advogado trabalhando para abrir portas no Planalto; Presidência nega que Lula tenha recebido presente ou enviado recados ao banqueiro
Entre cifras bilionárias, corredores do poder e uma garrafa de whisky que agora aparece no centro de uma controvérsia, o caso Banco Master ganhou mais um capítulo envolvendo o Palácio do Planalto. Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro mostram que o advogado Walfrido Warde, que integrou a defesa do empresário, atuou na tentativa de estabelecer uma interlocução entre seu cliente e o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em 22 de janeiro de 2025, 49 dias depois de Vorcaro ter se encontrado com Lula, Warde escreveu ao então controlador do Master dizendo que estivera com o Presidente naquele dia e que ele havia perguntado se o banqueiro estava bem e mais tranquilo. Segundo o relato enviado pelo advogado, Lula também teria agradecido novamente por um whisky e mandado um abraço. Vorcaro respondeu à mensagem com um emoji de coração. O diálogo consta dos dados obtidos pelos investigadores, mas seu conteúdo não significa que os fatos narrados pelo advogado tenham sido confirmados pelo Presidente. Ao contrário: o Palácio do Planalto contesta a versão e afirma que Lula não recebeu presente de Vorcaro, não enviou recado ao empresário e desconhecia a suposta articulação conduzida pelo advogado. A revelação, portanto, documenta aquilo que Warde afirmou ao cliente e evidencia a busca por um canal de aproximação, mas não comprova que a bebida tenha efetivamente chegado às mãos do Presidente.
As conversas também revelam movimentos anteriores destinados a viabilizar o encontro entre Vorcaro e Lula realizado em 4 de dezembro de 2024, no Palácio do Planalto. Em uma mensagem de voz encaminhada ao banqueiro, Warde relatou ter recebido uma ligação de Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, então chefe de gabinete pessoal do Presidente, cobrando o envio de um e-mail com os assuntos que seriam apresentados na reunião. O advogado pediu a Vorcaro que lhe encaminhasse os temas de interesse do grupo para que ele pudesse organizar o conteúdo e formalizar, em seu próprio endereço eletrônico, uma solicitação de audiência com Lula. A reunião acabou ocorrendo, embora não estivesse previamente registrada na agenda presidencial. Vorcaro chegou ao Planalto acompanhado do ex-ministro Guido Mantega, e também participaram da conversa o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e Gabriel Galípolo, então diretor de Política Monetária e hoje presidente do Banco Central. Segundo a versão divulgada pela Presidência, o empresário afirmou durante o encontro que se considerava alvo de perseguições. Lula teria respondido que eventuais denúncias envolvendo o banco deveriam ser examinadas tecnicamente pelo Banco Central. O Planalto sustenta ainda que essa foi a única reunião entre Lula e Vorcaro e que não houve qualquer outro contato entre os dois.
Whisky nos bastidores
A referência à bebida chama atenção não pelo valor conhecido do presente (que não foi informado) mas pelo contexto em que aparece. O diálogo integra um conjunto de comunicações apreendidas pela PF que ajuda a revelar os esforços de Vorcaro e de pessoas de seu entorno para construir canais de interlocução em Brasília. No caso específico de Lula, entretanto, é necessário separar três fatos distintos: a reunião no Planalto efetivamente ocorreu; Warde escreveu posteriormente ao banqueiro dizendo ter conversado com o Presidente; e foi o próprio advogado quem afirmou na mensagem que Lula havia agradecido pelo whisky e perguntado por Vorcaro. A Presidência nega justamente essa última narrativa. A Secretaria de Comunicação Social afirma que o chefe do Executivo não recebeu o presente, não mandou abraço ou qualquer outro recado ao ex-banqueiro e tampouco comentou festas promovidas por ele. O governo também declara que Lula não tinha conhecimento da articulação atribuída a Warde. Até a publicação das informações, as defesas do advogado e de Marco Aurélio Santana Ribeiro ainda não haviam apresentado resposta à reportagem. Dessa forma, a mensagem é relevante por mostrar o que o advogado transmitia ao cliente sobre sua suposta interlocução presidencial, mas não permite concluir, sem elementos adicionais, que todas as afirmações feitas naquele diálogo correspondam ao que efetivamente ocorreu.
O material acrescenta novas peças ao quebra-cabeça das relações políticas e institucionais mantidas por Daniel Vorcaro antes do colapso do Banco Master. Há um encontro comprovado entre o banqueiro e Lula, ocorrido dentro do Palácio do Planalto; existem mensagens mostrando um advogado trabalhando para construir essa aproximação; e há um relato posterior do mesmo advogado atribuindo ao Presidente perguntas sobre Vorcaro, um abraço e um agradecimento por whisky. Por outro lado, a versão oficial do governo rejeita qualquer contato posterior à reunião de dezembro de 2024 e sustenta que o Presidente jamais recebeu a bebida mencionada na conversa. A Presidência também destaca que foi durante o atual governo que o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master e que Vorcaro acabou preso pela Polícia Federal no âmbito das investigações envolvendo a instituição. O episódio, portanto, não demonstra que Lula tenha concedido tratamento favorável ao banqueiro, mas expõe os movimentos realizados nos bastidores por pessoas ligadas a Vorcaro para chegar ao núcleo do Executivo. Em meio às sucessivas revelações extraídas dos celulares e documentos apreendidos pela PF, o whisky tornou-se apenas o detalhe mais curioso de uma história maior: a tentativa de abrir portas e estabelecer interlocução nos principais endereços do poder em Brasília.