Polícia Civil cumpre mandados em quatro estados contra grupo suspeito de abastecer a facção; investigação aponta quase 800 quilos de drogas e movimentações de R$ 70,49 milhões
A estrutura montada para fazer a droga viajar entre estados ganhou asas, movimentou milhões e, segundo a Polícia Civil, abasteceu uma das maiores facções criminosas do Rio; até entrar na rota dos investigadores. A Operação Icarus, deflagrada nesta terça-feira, 22, mira um esquema apontado como um dos principais canais de fornecimento de entorpecentes para o Comando Vermelho (CV). Mandados de prisão e de busca e apreensão são cumpridos no Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Alagoas, numa ofensiva coordenada pelo Serviço de Investigações Complexas da Corregedoria-Geral e pela Subsecretaria de Inteligência da Polícia Civil fluminense. Até o início da manhã, seis investigados haviam sido presos. Entre eles está Laércio Isidoro do Nascimento Júnior, conhecido como “Boss”, apontado pela investigação como fornecedor de drogas e responsável pela articulação direta com integrantes da facção.
As investigações indicam que a organização possuía uma divisão definida de tarefas, com suspeitos responsáveis pelo fornecimento dos entorpecentes, transporte, logística, cobrança e recolhimento do dinheiro. De acordo com a polícia, Boss negociava cargas, organizava fretes e pagamentos e coordenava pessoas envolvidas na movimentação das drogas. O nome dele apareceu durante a análise de documentos apreendidos com Marcos Antônio Pereira Firmino da Silva, conhecido como “My Thor”, apontado pelas autoridades como uma liderança do Comando Vermelho. Anotações da contabilidade atribuída ao tráfico indicariam pagamentos feitos por My Thor a uma pessoa identificada como “Boss”. A partir dessas informações, os investigadores avançaram sobre outros integrantes e passaram a reconstruir a cadeia utilizada para transportar drogas de São Paulo para o Rio.
Milhões na rota
Duas grandes apreensões realizadas em 2024 foram relacionadas pelos investigadores à estrutura agora investigada. Em fevereiro daquele ano, 715,7 quilos de cocaína e maconha foram encontrados em Guarulhos, na Grande São Paulo. Três meses depois, outros 73,8 quilos de cocaína foram apreendidos em Seropédica, na Região Metropolitana do Rio. Somadas, as duas cargas chegam a 789,5 quilos de entorpecentes. Segundo a Polícia Civil, os elementos reunidos apontam que as apreensões fariam parte da mesma dinâmica interestadual de transporte. Empresas dos setores de transporte e logística também são investigadas por suspeita de terem sido utilizadas para ocultar ou facilitar o deslocamento das cargas entre os dois estados. A operação busca agora documentos, equipamentos e outros elementos que possam detalhar a atuação dos envolvidos e identificar eventuais participantes ainda não alcançados pela investigação.
O dinheiro movimentado pelo grupo é outra frente considerada central pelos investigadores. A Polícia Civil identificou R$ 70,49 milhões em operações financeiras consideradas atípicas envolvendo investigados e empresas que, segundo a apuração, podem ter sido utilizadas para ocultar ou dissimular recursos. A suspeita é de que “laranjas” também tenham participado da movimentação do dinheiro proveniente do tráfico. As prisões e buscas realizadas nesta terça-feira integram uma investigação ainda em andamento, e as suspeitas atribuídas aos alvos deverão ser analisadas no curso dos procedimentos policiais e judiciais. O nome escolhido para a ofensiva remete ao personagem da mitologia grega que tentou voar alto demais e acabou caindo quando suas asas não resistiram ao calor do sol. Na versão policial da história, a Operação Icarus tenta descobrir até onde chegaram as asas de uma rede que teria feito drogas e milhões cruzarem o país para abastecer o tráfico no Rio.