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Economia

Apostas em bets fazem economia brasileira perder até R$ 141 bilhões

16/09/2026 • 06:46 • Por Felipe Masid

Estima-se que as apostas online tenham retirado entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025

Foto: Joakim Honkasalo/Unsplash

Estudo da USP aponta que dinheiro destinado aos jogos online reduz consumo, pressiona arrecadação, pode aumentar endividamento das famílias e ampliar desigualdade

A sorte de alguns apostadores pode estar custando caro para a economia brasileira. Enquanto milhões de reais atravessam diariamente as telas dos celulares em busca de um prêmio, parte desse dinheiro deixa de passar pelo supermercado, pelo comércio, pelos restaurantes e por outros setores que movimentam a atividade econômica. Um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), ligado à Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), estima que as apostas online tenham retirado entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025. O impacto calculado equivale a aproximadamente 0,9% a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Segundo os pesquisadores, a dimensão da perda corresponderia a algo entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia naquele ano. Mesmo quando entram na conta os empregos diretos e indiretos criados pelo mercado de apostas, a conclusão geral do levantamento praticamente não se altera. 

A conta começa com uma transferência líquida estimada em R$ 62,5 bilhões das famílias para as plataformas de apostas, considerando a diferença entre o dinheiro colocado nos jogos e os valores devolvidos aos apostadores em prêmios. O efeito econômico, porém, pode ser maior do que essa transferência inicial. Isso acontece porque uma parcela dos recursos que vai para as bets deixa de financiar o consumo de produtos e serviços. Quando uma família reduz suas compras, o comércio vende menos; com faturamento menor, empresas demandam menos de fornecedores, investimentos podem diminuir e menos renda circula pela economia. É justamente esse efeito em cadeia que ajuda a explicar por que os pesquisadores chegaram a um impacto potencial superior a R$ 100 bilhões. A consequência também aparece nos cofres públicos: a redução da atividade econômica teria provocado uma perda de arrecadação estimada entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões. As plataformas, por sua vez, geraram cerca de R$ 9 bilhões em receitas diretas para o poder público. Descontado esse montante, o efeito líquido calculado pelo estudo ainda seria negativo em pelo menos R$ 22 bilhões, podendo alcançar R$ 46 bilhões.

Aposta que pesa no bolso

O levantamento também chama atenção para um possível impacto sobre o endividamento das famílias. Em 2025, o saldo de crédito destinado às pessoas físicas aumentou aproximadamente R$ 450 bilhões. Em um cenário extremo apresentado pelos próprios pesquisadores — no qual toda a transferência líquida de R$ 62,5 bilhões para as plataformas tivesse sido financiada por novos empréstimos — as apostas poderiam representar cerca de 14% do crescimento do endividamento registrado no período. O estudo não afirma que todo esse dinheiro tenha vindo de crédito e trata expressamente essa situação como uma hipótese limite, mas utiliza o cálculo para dimensionar o tamanho que o fenômeno pode alcançar. Outra preocupação está na distribuição de renda. Como a retirada de recursos destinados ao consumo pode ter efeitos diferentes conforme a renda das famílias, os pesquisadores estimam que a transferência para as casas de apostas possa contribuir para ampliar a concentração de renda. Dependendo de quem recebe os lucros das plataformas, o impacto estimado sobre a concentração de renda entre o 1% mais rico varia de 0,5% a 2,1%.

Os números colocam as bets muito além de uma discussão sobre ganhar ou perder dinheiro individualmente. Na avaliação apresentada pelo Made-USP, o avanço das apostas online produz efeitos capazes de alcançar consumo, arrecadação tributária, endividamento, distribuição de renda e crescimento econômico. Isso ocorre porque recursos que anteriormente poderiam circular por diferentes setores passam a ser direcionados às plataformas, diminuindo a demanda por outros bens e serviços. O estudo estima ainda que a perda líquida de arrecadação provocada por esse processo poderia ficar entre R$ 22 bilhões e R$ 46 bilhões, mesmo depois de considerada a receita diretamente gerada pelas empresas do segmento. Dessa forma, embora o mercado de apostas também crie empregos, movimente empresas e gere tributos, os cálculos dos pesquisadores indicam que esses efeitos não seriam suficientes para compensar integralmente a redução mais ampla da atividade econômica. Na matemática das bets, portanto, a aposta deixa de ser apenas uma questão entre jogador e plataforma: quando bilhões saem do orçamento das famílias e mudam de destino, o resultado pode aparecer também no caixa das empresas, nas contas públicas e no próprio desempenho da economia brasileira.

Felipe Masid