Notícia Todo Dia NTD
RJ

Perigo por um fio: Polícia fecha fábrica de linha chilena após morte de coronel em queda de parapente no Rio

16/09/2026 • 05:50 • Por João Vieira

A fábrica clandestina de linha chilena funcionava na Estrada do Cafundá, na Taquara, em Jacarepaguá, Zona Sudoeste do Rio

Foto: Reprodução TV Globo

Cinco pessoas foram presas em flagrante na Taquara, em Jacarepaguá; operação ocorreu após investigação ganhar força com acidente fatal de parapente em São Conrado

Um fio quase invisível, mas com poder para transformar o céu em armadilha. A Polícia Civil fechou, nesta terça-feira, 15, uma fábrica clandestina de linha chilena que funcionava na Estrada do Cafundá, na Taquara, em Jacarepaguá, Zona Sudoeste do Rio. Cinco pessoas foram presas em flagrante por agentes da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA). A operação ocorreu pouco mais de duas semanas após a morte do coronel do Exército Álvaro Roberto Cruz Ferreira Lima, que sofreu uma queda de parapente em São Conrado, no dia 28 de agosto. O Clube São Conrado de Voo Livre afirmou que uma linha de pipa com material cortante teria atingido o equipamento; as circunstâncias do acidente, porém, seguem sob investigação. 

Quando os policiais chegaram ao imóvel, a fábrica estava em funcionamento. No local foram apreendidos máquinas, carretéis, linhas, produtos químicos e outros materiais usados na produção em grande escala. Segundo a Polícia Civil, a quantidade encontrada foi considerada expressiva e deverá passar por perícia. Um dos cinco detidos já havia sido enquadrado anteriormente pelo mesmo tipo de crime. O grupo pode responder com base no artigo 56 da Lei de Crimes Ambientais, que prevê pena de um a quatro anos de reclusão, além de multa, para determinadas condutas envolvendo produtos ou substâncias perigosas ou nocivas em desacordo com as exigências legais.

Risco que corta

A linha chilena preocupa especialmente pelo elevado poder de corte e pelo risco para quem sequer participa da brincadeira com pipas. Motociclistas, ciclistas, pedestres e praticantes de voo livre podem ser atingidos por fios difíceis de visualizar. No estado do Rio, a legislação proíbe fabricar, vender, comprar, portar, possuir ou utilizar cerol e linha chilena. As denúncias também vêm crescendo: segundo dados do Disque Denúncia divulgados após a operação, foram 561 registros em 2024 e 1.203 em 2025. Em 2026, já haviam sido contabilizadas 639 ocorrências.

A ofensiva policial não termina com as cinco prisões. Os investigadores agora tentam descobrir quem comprava a linha produzida clandestinamente, como funcionava sua distribuição e se o grupo tinha ligação com outros pontos de fabricação. Esta é a segunda fábrica desse tipo fechada pela Polícia Civil em Jacarepaguá em apenas quatro meses; a unidade desativada em maio, segundo a investigação, abastecia inclusive outros estados. A morte do coronel Álvaro, ainda investigada quanto à causa, aumentou a pressão sobre um problema que ultrapassa a brincadeira de soltar pipa e pode colocar vidas em risco. Depois da tragédia no céu de São Conrado, a polícia tenta agora cortar o perigo pela raiz — e, principalmente, antes que novas vítimas fiquem por um fio.

João Vieira