Estado registrou 234 mortes entre janeiro e julho de 2026; especialistas alertam que padrões rígidos de masculinidade podem dificultar a procura por ajuda
Por trás de frases como “homem não chora” e “seja forte” pode existir um silêncio perigoso. Em Mato Grosso, os números transformam esse alerta em uma realidade preocupante: entre janeiro e julho de 2026, 180 homens morreram por suicídio, contra 54 mulheres, uma diferença de 233,3%. Ao todo, foram 234 mortes no estado no período; média próxima de uma por dia. Na prática, para cada mulher que morreu por suicídio, aproximadamente 3,3 homens foram vítimas, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp).
A diferença, segundo o psicólogo Rodrigo Brito, doutor em Estudos de Linguagem pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), não significa necessariamente que os homens sofram mais, mas pode estar relacionada à maneira como muitos são socializados para enfrentar problemas emocionais. A associação da masculinidade à força, independência, controle e capacidade de resolver dificuldades sozinho pode transformar a demonstração de vulnerabilidade e a procura por apoio em sinais de fraqueza para alguns homens. O especialista ressalta que o problema não está na masculinidade em si, mas na rigidez desses padrões, que pode dificultar que o sofrimento seja reconhecido e compartilhado antes de chegar a situações extremas.
Alerta aceso
Os dados gerais também preocupam. Mato Grosso registrou 234 mortes por suicídio nos primeiros sete meses de 2026, aumento de 19,4% em comparação com as 196 ocorrências verificadas no mesmo período de 2025. Em relação aos primeiros sete meses de 2022, quando foram contabilizadas 158 mortes, o crescimento chega a 48,1%. Janeiro chamou especialmente a atenção, com 53 registros, o maior número para o mês nos últimos cinco anos. Cuiabá contabilizou 39 casos entre janeiro e julho, enquanto Rondonópolis, Várzea Grande e Sorriso registraram, cada uma, entre 12 e 19 mortes no período.
Especialistas defendem que enfrentar o problema exige ampliar o acesso aos serviços de saúde mental, fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS) e a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), capacitar profissionais e desenvolver estratégias que levem em consideração também as particularidades da população masculina. Em Mato Grosso, municípios vêm promovendo ações de conscientização e reforçando o atendimento por meio de unidades básicas e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Para quem precisa conversar, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188; em situações de emergência ou risco imediato, o atendimento pode ser acionado pelo Samu, no 192.