No ano passado, as semanas de moda de Nova Iorque, Londres, Milão e Paris trouxeram a alfaiataria com estrutura rígida, ombros marcados e tons sóbrios como uma das principais tendências para 2026.
O estilo, conhecido como Power Dressing, foi popularizado inicialmente nas décadas de 70 e 80 com a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho. Em um ambiente dominado por homens a lógica era clara: para pertencer, era preciso parecer.
Décadas depois, a estética volta a ganhar protagonismo nas passarelas. Ao mesmo tempo, o Brasil — e o mundo — registra índices históricos de violência contra a mulher e um crescimento dos conteúdos misóginos nas redes sociais.
Nesse contexto, a tendência levanta uma questão provocadora: seria o power dressing uma resposta estética ao conservadorismo?
Como a moda e o contexto social se relacionam
De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Justiça, em média, 4 mulheres são assassinadas por dia no Brasil, enquanto 425 denúncias de violência chegam ao Ligue 180 diariamente.
Simultaneamente, um levantamento do Desinfo.pop, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostrou que o envio de conteúdo misógino em comunidades virtuais aumentou 600 vezes entre 2019 e 2025.
“Qual espaço público está sendo construído para essas e as futuras gerações de mulheres?”, questiona a antropóloga Tatiana Massaro. “Se o power dressing ainda é necessário como escudo, a polarização segue demarcando espaços que as mulheres ainda precisam conquistar”.
Para a consultora de imagem e reputação, Alexandra Bastos, quando uma tendência de moda emerge exatamente quando os espaços públicos se tornam mais hostis às mulheres, precisamos questionar quais elementos nós queremos adotar e o que queremos — com eles — comunicar.
O power dressing sob outra ótica

Em 2026, a tendência retorna às passarelas, mas não replica os anos 80. Ele incorpora conforto, sustentabilidade, diversidade corporal e, sobretudo, multiplicidade de identidades. “As ministras Marina Silva e Sônia Guajajara vêm optando por trajes que expressam seus compromissos e pontos de vista”, diz Tatiana.

O mesmo se observa em outras esferas. “Maria Bethânia tem se apresentado com blazers, camisas, saias e vestidos longos, numa espécie de revisita ao movimento, entremeada por referências de religiões africanas”, compara.
Segundo a antropóloga, à medida que cresce a diversidade de mulheres em posições de liderança, o poder deixa de precisar parecer masculino para ser reconhecido — e cada uma passa a adotar tendências alinhadas à própria identidade.
A intenção ao vestir

O power dressing, marcado pelas linhas retas, cortes rígidos e cores sóbrias, está intimamente ligado ao vestir-se para passar credibilidade ou para se sentir imbatível.
Aqui, é importante entender quem está usando, em que contexto e por quê. Na prática, a consultora orienta adequar a moda ao ambiente, ao compromisso e aos objetivos pessoais.
“Ocupe os espaços. Depois de conquistar, vá incorporando cada vez mais o seu estilo pessoal. Se, em um primeiro momento, você precisar do blazer e de uma estrutura mais formal para se sentir bem, use”, diz a consultora, reforçando a importância de usar a moda como instrumento de afirmação — e não como um esconderijo da própria expressão.
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