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Gastronomia e Turismo

Rio esquenta no inverno: Turismo deve injetar R$ 7,4 bilhões na economia carioca

01/09/2026 • 12:57 • Por Felipe Masid

Cidade espera receber 2,8 milhões de visitantes entre julho e setembro, enquanto grandes eventos ajudam a transformar os meses mais frios em temporada aquecida para o turismo

No Rio de Janeiro, o inverno parece ter desaprendido a ser baixa temporada. Enquanto os termômetros ficam mais comportados, hotéis, restaurantes, atrações turísticas e espaços de eventos ganham movimento suficiente para aquecer a economia: os visitantes que passam pela cidade entre julho e setembro de 2026 podem movimentar R$ 7,4 bilhões, segundo estimativa da Prefeitura do Rio, elaborada por meio da Riotur e das secretarias municipais de Desenvolvimento Econômico e de Turismo. A expectativa representa crescimento real de 7,8% em relação ao mesmo período de 2025, quando os gastos dos turistas somaram R$ 6,9 bilhões. A projeção acompanha uma mudança importante no calendário turístico da capital fluminense. Historicamente associada ao verão, às praias, ao Carnaval e ao Réveillon, a cidade vem ampliando sua capacidade de atrair visitantes durante todo o ano, especialmente com uma agenda que combina cultura, gastronomia, esporte, entretenimento, tecnologia e negócios. A previsão é de que 2,8 milhões de turistas nacionais e estrangeiros visitem o Rio nos principais meses do inverno deste ano. Para a Riotur, os números mostram que a estação deixou de funcionar apenas como intervalo entre grandes temporadas e passou a ocupar posição própria na economia turística da cidade, espalhando receita e oportunidades por uma cadeia que começa na hospedagem e chega ao comércio, aos transportes, aos bares, aos restaurantes e aos serviços.

A transformação aparece também no perfil e na evolução do fluxo de visitantes. Dados do Observatório do Turismo Carioca mostram que 2,7 milhões de turistas estiveram na cidade durante o inverno de 2025, sendo 83,9% brasileiros e 16,1% estrangeiros. Para 2026, a Prefeitura trabalha com crescimento de 5% no número de visitantes nacionais e, principalmente, de 15% entre os internacionais, movimento que reforça a recuperação e a expansão da presença do Rio no mercado externo. O avanço acontece em paralelo à estratégia de diversificar os motivos que levam alguém a escolher a cidade. Sol, praia, Cristo Redentor e Pão de Açúcar continuam funcionando como cartões de visita poderosos, mas já dividem espaço com uma programação capaz de criar razões específicas para viajar ao Rio mesmo fora dos meses tradicionalmente mais procurados. O clima mais ameno também se transforma em vantagem: segundo a Secretaria Municipal de Turismo, o inverno oferece algumas das melhores condições de visibilidade do ano para visitar atrações como o Cristo Redentor e o Bondinho Pão de Açúcar. Para hotéis e outros negócios ligados ao setor, essa mudança ajuda a reduzir a dependência dos tradicionais picos de verão. Em vez de concentrar grande parte do faturamento em poucas datas, um calendário mais distribuído permite manter empregos, consumo e ocupação turística em períodos que no passado tinham peso significativamente menor.

Inverno que rende

Por trás dos bilhões projetados está justamente uma agenda que praticamente elimina a ideia de cidade parada durante a estação. Entre julho, agosto e setembro, o calendário reúne eventos de diferentes perfis, como Maratona do Rio, Bienal do Livro, Energy Summit, Orquestra Ouro Preto Vale Festival, festas juninas, Expo Rio Turismo, Prêmio Sabores da Orla, Festival de Inverno, Rio Innovation Week, Meia Maratona Internacional do Rio, Mundial de Ginástica Rítmica e Mondial de la Bière. A diversidade é parte importante da estratégia: enquanto algumas atrações mobilizam moradores e visitantes brasileiros, congressos, competições e encontros de negócios conseguem trazer público estrangeiro e viajantes corporativos, que apresentam hábitos de consumo diferentes do turista tradicional de lazer. O efeito econômico também ultrapassa os locais onde os eventos acontecem. Um visitante que chega à cidade para acompanhar uma competição, participar de uma feira ou assistir a um festival demanda hospedagem, alimentação, transporte e entretenimento e pode estender a permanência para conhecer atrações turísticas. Esse efeito multiplicador ajuda a explicar por que a Prefeitura trata os grandes eventos como instrumentos de desenvolvimento econômico, e não apenas como opções de lazer. Na avaliação da Riotur, a combinação entre programação cultural, esportiva e empresarial fortalece a geração de empregos e oportunidades em diferentes setores e regiões da cidade. Quanto mais motivos o Rio oferece para uma viagem ao longo do calendário, menor se torna a dependência da sazonalidade que historicamente caracteriza destinos de praia.

A estimativa de R$ 7,4 bilhões reforça, portanto, uma mudança de posicionamento: o Rio tenta consolidar a imagem de destino para os 12 meses do ano. O movimento já havia aparecido no outono, quando a Prefeitura projetou a chegada de 3,5 milhões de turistas e impacto econômico potencial de R$ 7,6 bilhões entre março e junho. Agora, o inverno amplia essa lógica e mostra como eventos podem preencher períodos antes tratados como secundários pelo setor. Para a administração municipal, a expansão também beneficia atividades que nem sempre aparecem diretamente nas estatísticas de turismo, mas sentem imediatamente o aumento de circulação: comércio de rua, motoristas de aplicativo, taxistas, pequenos restaurantes, vendedores, produtores culturais e prestadores de serviços estão entre os segmentos que podem capturar parte desse dinheiro. A aposta é transformar o calendário em uma espécie de motor permanente, capaz de alternar grandes espetáculos, encontros empresariais, competições esportivas e atrações culturais sem depender exclusivamente de Carnaval, Réveillon ou verão para lotar a cidade. Os R$ 7,4 bilhões previstos para este inverno ainda são uma estimativa e dependerão do fluxo efetivo e do comportamento de consumo dos visitantes, mas representam um salto em relação aos R$ 6,9 bilhões movimentados no mesmo período de 2025. Se as projeções se confirmarem, o Rio acrescentará mais um argumento à velha fama de cidade que sabe viver ao ar livre: por aqui, até quando a temperatura cai, o turismo encontra uma maneira de manter a economia aquecida.

Felipe Masid